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Gravidez | Porquê que a Carminho não tem o antebraço esquerdo?

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Uma das primeiras perguntas que a Constança fez (com apenas 19 meses) depois da Carminho ter alta da neonatologia foi: “a mão?”.  Estava a namorar a irmã e a examiná-la ao pormenor quando percebeu que havia ali alguma diferença. Não se consegue explicar a uma criança de 19 meses o que vou explicar a seguir e por isso limitei-me a subir a manga do body e a dizer-lhe: “A maninha não tem esta mão meu amor, só tem a outra!”. Para ela aquela resposta foi esclarecedora, embora sempre que se lembrava voltava a perguntar pela mão e de seguida dizia: “não tem! Só tem a outra!”. Em pouco tempo habituou-se a ver a irmã assim e hoje já não pergunta. Só ajuda a irmã quando a vê em apuros por falta do apoio daquela mão.

Depois do parto fomos contando aos familiares e amigos que nos ligavam a felicitar pelo nascimento delas e a saber notícias das meninas e rapidamente se espalhou a novidade. Também não pretendíamos guardar segredo. A nossa filha é assim e nada vai mudar isso por isso só tínhamos que aceitar e encarar. Independentemente disso o nosso foco continuava a ser a sobrevivência dela.

Rapidamente vários entendidos na matéria inventaram as mais diversas causas para isso ter acontecido. O cordão umbilical garrotou-lhe o braço e teve que ser amputado. Fracturou durante o parto (e com tamanha brutalidade que a fractura foi irremediável!). Nasceu siamesa pelo braço com a irmã e tiveram que as separar e a Carlota ficou com o braço e a Carminho sem ele. Foi pela posição na barriga, estava em cima do braço e este acabou por partir. Não se formou. Depois de nascer tentaram pôr um cateter naquele braço e agrediram de tal forma que acabou por ter que ser amputado. Foi queimado/cortado com o laser em Londres. E juro que ainda ouvimos mais algumas versões que agora não me recordo. 

Muito poucas foram as pessoas que tiveram coragem de nos perguntar o verdadeiro motivo e eu compreendo perfeitamente. Numa situação idêntica também não sei se teria coragem de abordar o assunto por medo de ferir susceptibilidades. 

Mas afinal porquê que a Carminho não tem antebraço esquerdo?



No momento do parto, quando me disseram que a Carminho tinha ficado sem a mão, fiquei convencida que era “apenas” a mão. O corpo de um prematuro é muito desproporcional, com mãos, pés e cabeça enormes em relação ao resto do corpo que era tão minúsculo. Por isso era difícil perceber que não era apenas a mão. Só umas três semanas depois com o crescimento dela é que comecei a perceber que não seria só a mão e questionei a equipa médica. Era efectivamente todo o antebraço. 

A causa chama-se: brida amniótica. De uma forma muito básica uma brida amniótica é uma banda fibrosa, tipo um fio, que fica pendurado desde a placenta a flutuar no líquido amniótico e se for suficientemente comprido pode garrotar (ou não) uma parte do corpo. Pode ainda causar malformações por exemplo na cara. Podemos ter uma ou várias bridas amnióticas. Esta brida geralmente é causado por um traumatismo (um embate com a barriga). No caso da Carminho suspeita-se que tenha sido causada pelo tratamento a laser efectuado em Londres e está ainda em estudo a incidência de bridas neste tipo de tratamentos. Foi um tratamento agressivo e pode ter originado uma ruptura na bolsa amniótica provocando a brida. Geralmente esta é detectada ao longo da gravidez, nas ecografias, mas no meu caso só soube à nascença. 



Nasceu com a brida amniótica a garrotar o membro superior esquerdo e como tal este esteve privado de circulação sanguínea. Desta forma, à nascença, necrosou acabando por cair três semanas depois. Durante essas três semanas ficou ali algo idêntico a uma folha seca, muito encolhida e frágil.

Como eu costumo dizer, aquilo que lhe salvou a vida tirou-lhe um antebraço. E a vida dela é muito mais importante do que um antebraço!

Gravidez | O parto

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Qualquer mulher anseia o dia do parto. Umas por medo da dor mas todas por conhecer e ter nos braços o nosso maior amor. Assim foi no parto da Constança, o dia mais feliz da minha vida! Mas quando tudo sai do padrão normal e há riscos envolvidos o caso muda de figura.

Antes de entrar para o bloco fui até à sala de recobro porque estavam a acabar de limpar o bloco e não podia entrar antes de terminarem. Aí entrei literalmente numa crise de ansiedade. Tremia como se estivesse na Sibéria e transpirava como se estivesse no México. Quando tentava falar a minha voz saía trémula e com falhas. Foram buscar-me um cobertor porque achavam que eu tinha frio mas expliquei que não era frio, que estava em pânico e a enfermeira disse-me: “é mau quando sabemos de mais não é?”. 

O bloco estava limpo e eu ia entrar. Era só sair daquela porta e entrar na porta mesmo em frente. Entrei no bloco, enorme e vazio de objectos, e mesmo no meio estava a mesa para onde eu ia ser transferida. Encostadas à parede estavam duas encubadoras afastadas uma da outra. Lá dentro estavam imensos (imensos mesmo) profissionais. Por momentos lembrei-me de Londres quando estavam tantos profissionais a assistir ao meu tratamento. Transferiram-me para a mesa de operações e uma obstetra, à qual só conseguia ver uns lindos olhos verdes por cima da máscara, disse-me para não me assustar com tantas pessoas na sala mas estavam duas equipas de médicos, obstetras e pediatras, médicos suplentes (caso fossem necessários), enfermeiros do bloco, enfermeiros da neonatologia e anestesistas. Só pediatras eram quatro, dois para cada bebé, e ainda dois suplentes. Obstetras eram outros quatro. Mesmo com tantas pessoas no bloco não havia barulho. Jamais esquecerei toda a delicadeza de toda a equipa. Começaram a monitorizar-me e administraram a anestesia. A minha ansiedade estava no auge, de tal forma que o oximetro saía projectado do meu dedo com tanto suor. Lembro-me de dizer a mim própria: “Que vergonha, tens que te acalmar! Pareces uma criança descontrolada.. Vou pensar no mar e no seu som”. E estava a esforçar-me mas não estava a resultar. Sentia o meu corpo a tremer e foram buscar mais um cobertor, apesar de eu dizer que não era frio. Os dois anestesistas estavam atrás da minha cabeça, de mãos dadas a mim. Ao meu lado estava uma pediatra “suplente” que depois me foi relatando o parto todo. 

Perguntaram-me o nome das meninas para escreverem nas pulseiras e no quadro. Quando lhes disse a reação na sala foi geral: que nomes bonitos! Na hora até pensei que a reação era para eu tentar acalmar-me mas no final até foram dar os parabéns ao pai por termos escolhido uns nomes tão bonitos. Perguntaram-me se os nomes eram ao acaso ou se tínhamos definido para quem era cada nome. Expliquei que a pequenina era a Carminho e a maior a Carlota. 

A obstetra disse que me iam algaliar naquele momento. A seguir deitaram água fria na minha perna e na minha barriga e perguntou se estava a sentir. Sentia tudo. Aumentaram a anestesia e repetiram o teste. Continuava a sentir. O anestesista perguntou à sua colega se não era melhor eu ser sedada mas a anestesista respondeu que no meu caso não podiam. Só dias depois é que o meu cérebro atingiu o porquê! O sedativo ia ter efeitos nas bebés e poderia ser muito prejudicial. Repetiram o teste mais duas vezes e à terceira deixei de sentir. “Vamos então começar” disse a obstetra. 

Oh meu Deus! É agora. Enquanto sentia o bisturi a deslizar no meu abdómen (sem ter dor) só pensava “elas vão viver, elas vão viver, elas vão viver”. Mas por dentro estava morta de medo de ouvir o pior. Não havia nada que me estivesse a assustar mais. Tinha muito medo que uma delas entrasse em paragem cardíorrespiratória e não sobrevivesse. Eu não estava mesmo preparada para perder uma delas e muito menos as duas. 

A pediatra e a anestesista iam relatando todos os passos e eu ia ouvindo. A seguir comecei a sentir algo idêntico a esticar a pele da barriga para abrirem o orifício para as tirar e de repente sinto uma pressão enorme como se as tivessem a arrancar de dentro de mim e “A Carlota está a nascer”, “Ai que bonito, a Carminho saiu com ela, ao mesmo tempo!”. Às 12h45 e às 12h46 nasceram. E, tal como quando a Constança nasceu, começo a chorar de emoção. E a minha ansiedade passou a ser ouvi-las chorar, era sinal de vida. Não sei precisar quanto tempo demorou até isso acontecer porque naquele momento pareceu-me uma eternidade mas penso que tenham sido alguns segundo até me dizerem que era a Carlota a chorar, um som muito baixinho e fraco mas chorou. Cerca de um minuto depois foi a vez da Carminho, num som quase não audível. 

A pediatra foi-me dizendo que estavam a monitorizar as duas e os respectivos pesos, medidas e índices de APGAR enquanto as obstetras terminavam de cuidar de mim. E eis que a mesma pediatra que esteve sempre ao meu lado a contar-me tudo se ausentou um pouco e quando regressou trouxe-me uma notícia totalmente inesperada. De uma forma muito meiga e delicada, tal como aconteceu durante todo o parto, diz-me: “Surgiu um problema com a Carminho, ela não tem mão esquerda”. Percebi no rosto dela uma preocupação e apreensão com a minha reação mas a minha resposta saiu de rompante e lembro-me como se fosse hoje: “Doutora a minha preocupação é ter a minha filha viva e bem a nível cognitivo, uma mão vale o que vale”. Naquele momento aquela notícia não me abalou nem um pouco. A minha preocupação era (mesmo) ela estar viva e não ter sequelas, a mão era algo supérfluo quando comparado com a vida dela e com uma paralisia cerebral. O cenário era tão negro que aquela informação (naquele momento) não teve qualquer importância para mim. De seguida começaram a dizer-me aquilo que depois nos fomos habituando a ouvir: as próteses agora estão muito evoluídas, a medicina está muito evoluída, ... Naquele momento não estava mesmo focada nisso e não queria pensar nesse assunto. Só pedi para verem como davam a notícia ao meu marido porque ele não reage bem emocionalmente e ainda podia desmaiar. (No próximo post explico porquê que a Carminho nasceu ficou sem a mão). 

Pouco tempo depois vieram mostrar-me a Carlota. Vi-a durante cerca de cinco segundos. Estava sem roupa e era tão pequenina e magra. Não fixei nenhuma característica do seu rosto mas lembro-me do quanto me impressionou ser tão pequena. Como não me tinham dito qual delas era pensei que fosse a Carminho, nem reparei na mão, porque não imaginava que ainda pudesse haver uma mais pequena. Quando a vi comentei: “Oh meu Deus! É tão pequenina.” E a pediatra disse-me que aquela não era a Carminho. “Se esta não é a Carminho como é que a Carminho é?”.

Cerca de cinco minutos depois trouxeram a Carminho. Vinha toda embrulhada num lençol e apenas consegui ver um rosto muito pequenino e dar-lhe um beijinho. Levaram-na rapidamente. Até preferi não a ter visto na íntegra porque teria mais algum tempo para me preparar para o que ia ver. 

Eu saí para o recobro e deixaram o meu marido entrar dois segundos para me dar um beijo. Foi tão rápido que não tive tempo de lhe contar da Carminho. Só lhe disse: estão vivas! Fiquei no recobro cerca de 2h30. Tentei dormir mas não consegui. Estar ali sem notícias das minhas filhas matava-me. Não as tinha ao meu lado nem na barriga, era uma sensação muito estranha. Vi o bebé da cesariana seguinte a ser vestido, vi a mãe a ser trazida para o meu lado. Deram-me banho e comentei com a enfermeira que era muito estranho ter entrado no bloco com duas bebés na barriga e sair sem nada, nem barriga nem bebés. Ao que ela me disse de forma um pouco ríspida “desculpe mas você também não tinha grande barriga”. Vieram as enfermeiras da obstetrícia buscar-me e subi para o internamento. E agora começava um novo ciclo. A luta das nossas filhas era fora da barriga!


E assim o dia 1 de Agosto de 2017 passou a ser o dia mais triste, difícil e apreensivo da minha vida.

Gravidez | O dia do parto

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Era dia 1 de Agosto. Às 6h30 levantei-me para ir ao WC. Eu era daquelas grávidas que aguentava horas e horas sem ir ao WC e de noite raramente ia. Percebi que a perda de sangue tinha aumentado significativamente mas como já estava a perder sangue há dois dias e nas avaliações médicas nunca havia alterações decidi esperar pela manhã para alertar a enfermeira. Voltei a deitar-me e dormi mais um pouco, 1h depois acordei e fui tomar banho. Durante e no final do banho parecia uma torneira mal fechada, sempre a sair sangue. Acabei o banho, vesti-me e como a minha companheira de quarto ainda não tinha dado banho aqui a espertalhona decidiu andar de gatas a limpar o chão com o papel higiénico, não ia deixar a casa de banho naquele estado! Na hora foi o que me ocorreu,  nem me lembrei que podia ter chamado as senhoras da limpeza. (Nem queiram imaginar o raspanete que ouvi do meu marido quando lhe contei.)



Regressei para a cama e toquei para chamar a enfermeira. Quando esta chegou pediu-me que aguardasse um pouco e iria ser avaliada novamente pelo médico. Como não me tinha sido dada indicação para não tomar o pequeno-almoço e estava faminta comi um pão com manteiga e bebi um chá. Cerca de dez minutos depois fui chamada ao gabinete médico e lá fui eu na cadeira de rodas (era assim que me levavam ao gabinete médico). Ainda antes de me deitar a médica mal viu a perda de sangue disse: Ui! Isto é ruptura da bolsa. Por instinto comecei imediatamente a chorar. Não havia mais nada a fazer, elas iam nascer naquele dia com apenas 29 semanas. Aquilo saía completamente de tudo o que tinha idealizado e daquilo em que acreditava. Eu acreditava que ia chegar às 35 semanas e descambou tudo. O medo apoderou-se de mim.

Deitei-me para avaliação e mal fez o toque deu indicação à enfermeira para que me encaminhasse ao núcleo de partos. Parecia uma Maria Madalena banhada em lágrimas. Tinha um milhão de coisas para fazer antes de descer para o núcleo de partos mas não conseguia raciocinar. Só pensava e repensava no estado das minhas filhas, a nascerem com 29 semanas. Apenas conhecia dois casos de crianças que nasceram abaixo das 31 semanas e achava que era algo muito raro (até entrar na neonatologia!). A enfermeira perguntou-me se não ia ligar ao pai. Claro! Como é que ainda não me tinha ocorrido isso?! Liguei a chorar de tal forma que ele não estava a perceber rigorosamente nada, disse-lhe para voar para o hospital, não queria que as minhas filhas nascessem sem que ele estivesse lá. Estava em casa (a cerca de 75Km) e àquela hora o trânsito no Porto era caótico, como queriam apressar as coisas para elas nascerem rapidamente era provável que ele não chegasse a tempo. Depois a enfermeira e a auxiliar arrumaram as minhas coisas todas dentro da mala e descemos para o núcleo de partos. 

Mal entrei no núcleo vi uma mãe numa cadeira de rodas com a bata verde vestida, o cabelo preso e um olhar triste, tal e qual eu. Pensei, caramba que aspecto o nosso! Encaminharam-me novamente para uma cama,onde já tinha estado na primeira noite, e como tinha tomado o pequeno-almoço deram-me medicação endovenosa para acelerar a digestão e esvaziar o estômago. Sempre tive alguns problemas gástricos e já fazia essa medicação em casa em SOS via oral e dava-me um sono tremendo. Cinco minutos depois de me administrarem a medicação estava cheia de sono e só queria dormir. Pensei que se me levassem para parto normal não ia conseguir colaborar em nada porque estava completamente KO. 

Entretanto chegaram os anestesistas, de uma delicadeza, meiguice e simpatia impressionantes, e explicaram o procedimento para colocação do cateter. Essa parte assustava-me um pouco. No parto da Constança foi o que mais me custou. Não foi uma dor medonha mas foi incomodativa. Senti uma enorme pressão e uma espécie de choque pela coluna. E temia um pouco esse momento. Perguntei se ia ser parto normal porque se fosse estava a ponderar não levar epidural. Estava com contrações mas eu suporto bem as contrações e como as bebés eram pequeninas deveriam sair facilmente e a dor seria suportável. Mas ia ser cesariana porque a Carminho era muito pequena e como era a segunda a nascer ia exigir-lhe muito esforço por isso não podiam arriscar mais. Perceberam o meu receio em relação à anestesia e disseram-me para não me preocupar que não iria sentir dor, apensas a tal pressão porque essa não conseguiam evitar. Foram buscar o material, posicionei-me e em pouco tempo o cateter foi colocado. Realmente não senti dor absolutamente nenhuma!

Nos momentos seguintes veio a obstetra falar comigo, tentar controlar a minha ansiedade e explicar o porquê da cesariana em vez de parto normal como eu gostaria. De seguida veio o pediatra. Disse-me que ia ser um dos pediatras que iria estar no parto e como eu já devia saber a situação das minhas filhas era muito delicada. Especialmente a da Carminho mas a da Carlota também. Usando as palavras dele assim por alto.. Como a Carlota nunca passou por dificuldades ao longo de toda a gravidez e sempre esteve bem não estava preparada para nascer tão cedo e ter que lutar. Enquanto a Carminho esteve a lutar desde o início da gravidez e por isso esta situação não ia ser novidade para ela. Embora a situação dela fosse muito crítica dado o extremo baixo peso provocado pela restrição de crescimento intra-uterino. Ele falava e eu chorava. 

Durante aquele tempo em que estive ali sem o meu marido, e foi cerca de 1h30 (que mais pareceu um dia inteiro), estive quase sempre acompanhada. Raramente me deixavam sozinha tal era o meu estado de ansiedade. 

O meu marido chegou e eu continuava num pranto. O momento do parto estava a chegar e à medida que o tempo passava a minha ansiedade aumentava. Era um misto de sentimentos. Tinha medo de ouvir o que não queria no momento do parto. Tinha um medo avassalador que as minhas filhas não sobrevivessem (era o  que mais me assustava e que não saía da minha cabeça). Tinha medo de se confirmar a dita sequela na Carminho. Tinha medo do impacto de ver uma bebé tão prematura e pequena (a Carminho, pelas ecografias, pesava 510gr e a Carlota 980gr), nunca tinha visto um bebé assim e estava assustadíssima com aquilo que ia ver. E tinha medo da cesariana. Desde a intervenção em Londres morria de medo de qualquer acto médico e de sofrer novamente e por isso estava mesmo apreensiva. Não consigo descrever o turbilhão de pensamentos e sentimentos que estava a viver. Sei que queria acalmar-me e não pensar em nada disto mas nem por cinco segundos conseguia abstrair-me disto. A enfermeira foi conversando comigo ao longo daquele tempo que antecedeu a cesariana de forma a acalmar-me mas eu não estava a conseguir gerir aquela ansiedade. 

E chegou o momento! Vamos para o bloco. Lá ia eu na cama a percorrer o corredor a chorar (não fiz mais nada nesse dia a não ser chorar). Até que mesmo à entrada do bloco nos dizem que estava a chegar uma cesariana de urgência e eu só iria a seguir. Voltamos para trás. Vinte minutos depois vieram buscar-me, era o momento! Aquele que, noutras circunstâncias, deveria ser um dos momentos mais felizes da minha vida, era seguramente o mais triste. Sentia uma tristeza tão profunda e um medo tão grande! O meu marido não ia assistir à cesariana porque não se sente confortável em ambiente hospitalar e despedi-me dele à porta do bloco. A partir dali era eu e elas para tudo o que pudesse acontecer.

Gravidez | Paralisia cerebral?!

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Sem muitos rodeios diz-nos que uma das sequelas da restrição grave de crescimento intra uterino é a paralisia cerebral. Como?! Disse-nos que gostava de preparar os pais para o que viesse e de lhes pôr os pés bem assentes na terra. E essa era a nossa realidade. Havia uma probabilidade da Carminho nascer com paralisia cerebral. Naquele momento quem paralisou completamente fomos nós. Olhamos um para o outro e começamos a chorar. De tudo o que já tínhamos vivido e de tudo o que já nos tinha sido dito aquela era a maior bomba que nos tinham lançado. A partir daquele momento e até à primeira ecografia cerebral feita à Carminho eu nunca mais tive sossego. Aquela informação martelava na minha cabeça a toda a hora. Só me passavam na cabeça, como se fossem slides, imagens de crianças com paralisia cerebral. Era minha filha e eu ia amá-la e cuidar dela, se realmente se confirmasse, mas ia ser muito difícil de aceitar e de me adaptar. Não vou ser hipocrita, ninguém sonha ter um filho com paralisia cerebral. Aliás, quando engravidámos, ninguém expecta ter um filho com qualquer problema de saúde. Mas a paralisia cerebral é algo que afecta todo o núcleo familiar e acima de tudo aquela criança. É viver para aquele filho. E aquela criança viver assim a vida toda! Dependente de terceiros, sem autonomia e com todos os problemas de saúde inerentes à paralisia cerebral. E naqueles dias pensei muito nas mães que se viam com esse diagnóstico confirmado e no quanto devem ter sofrido até adaptarem a sua vida a esta nova vida. Essas sim são mães coragem!

Nessa noite fiquei em vigilância no núcleo de partos, é onde ficam as mães em trabalho de parto. Ficamos numa cama separadas por cortinas, de frente para a secretária das enfermeiras. Do outro lado do corredor estão as salas de partos. Não dormi rigorosamente nada. Vi todas as mães que chegaram, ouvi todos os partos. Perdi a conta ao número de bebés que nasceram naquela madrugada. Não me podia pôr a pé. No dia seguinte, sábado, deram-me banho na cama e após avaliação médica subi para o internamento. Continuava a fazer medicação para impedir as contrações e a indicação de permanecer deitada mantinha-se. Só podia levantar-me para ir ao WC. Passava 70% do meu dia a fazer CTG. Como a Carminho era muito pequenina era difícil conseguir apanhar o traçado dela e por isso repetiam vezes e vezes sem conta. Honestamente já nada me interessava. Ja não me importava de quanto tempo ia ficar internada, de ter que permanecer deitada (apesar da dor nas costas). A minha única preocupação era a Carminho nascer sem sequelas. 

Quando me disseram que ia subir para o internamento fiquei mesmo feliz, assim ia poder receber a visita da minha filha para me dar algum alento e alegrar o meu dia. Esteve comigo grande parte da tarde e quando olhava para ela e pensava “e se fosse ela com paralisia cerebral?” tinha a certeza que a amaria com a mesma intensidade. Mas que qualidade de vida teria ela?


Era a parte do dia que passava mais rápido. E mal foi embora o meu pensamento voltou para a Carminho. Ao início da noite voltei a ter contrações fortes e pouco espaçadas, era o stress a manifestar-se novamente. Fui avaliada e mantinha os três dedos de dilatação. Eram boas notícias mas tinha mesmo que me acalmar. Não podia piorar a situação. No dia seguinte, domingo (dia de aniversário do meu marido, a minha filha voltou a passar a tarde comigo. Apesar de não me poder levantar ela ficava sentada ao meu lado na cama e era o período mais feliz do meu dia. Nessa noite comecei a perder sangue em pequenas quantidades. Fui novamente avaliada mas aparentemente estava tudo bem. Durante a segunda-feira mantive a perda mas continuava tudo bem. 

Era dia 31 de Julho e a minha companheira de quarto, uma belíssima pessoa, agendou nesse dia a cesariana para o dia 2 de Agosto e eu não pude evitar de sonhar com o dia de ouvir a médica a agendar o meu parto, consciente de que só queria que nascessem em Outubro. Mas nessa madrugada as minhas filhas mudaram todo o rumo!

O médico tinha-nos perguntado se sabíamos quais as sequelas da restrição grave de crescimento da Carminho. Nunca ninguém nos tinha falado em sequelas. Apenas, obviamente, que nasceria muito mais pequena do que a irmã e de que isso lhe poderia trazer complicações depois do parto. Mas afinal quais eram as sequelas? 

Gravidez | A viagem de ambulância

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Como nada na minha gravidez cumpria os parâmetros normais, a transferência para outro hospital não ia ser uma excepção à regra. Nunca tinha andado numa ambulância enquanto doente e não é propriamente uma experiência muito agradável. Ia conversando com a enfermeira que me acompanhava e pensando em toda aquela situação. Ao longo das 28 semanas de gravidez nunca tive indícios de que pudesse entrar em trabalho de parto tão precocemente e tinha consciência de que aquilo só aconteceu por causa de todo o stress vivido na noite anterior por causa do internamento. Tentei controlar-me mas não conseguia. Quanto mais pensava que tinha que me acalmar mais chorava. Mas agora o mal estava feito e tinha mesmo que controlar a minha ansiedade para não piorar a situação.



Estávamos a cerca de dez minutos do hospital quando a enfermeira perguntou às tripulantes da ambulância se faltava muito. Ir contra a marcha estava a deixar-me nauseada e não sei se aguentaria muito mais tempo sem vomitar. Achei estranho não termos apanhado trânsito, tendo em conta que aquela hora os acessos ao Porto estão sempre muito condicionados. E finalmente chegamos! Sabia que era um hospital que tinha sido todo remodelado, era a antiga maternidade Júlio Dinis mas não sabia que seria uma maternidade tão grande e tão igual ao Hospital de Braga. Comentei com as tripulantes da ambulância que era igualzinho ao Hospital de Braga ao que elas responderam “ e é o Hospital de Braga!”. Por momentos fiquei feliz. Tinha mesmo preferência por ir para Braga. Os acessos são melhores, com menos trânsito, sem portagens. Já conhecia parte da equipa de obstetrícia porque tive consultas lá e tinha família a viver em Braga que nos podia ajudar. 

Perguntei se tinham a certeza que era ali que eu ia ficar porque o médico tinha dito que não havia vagas em Braga. Disseram que sim, era o que estava escrito na guia de transporte! E mostraram à enfermeira. Antes de me tirarem da ambulância a enfermeira telefonou à sua chefe para confirmar e confirmou-se que tinha sido um erro da administrativa ao passar a guia de transporte. Eu ia efectivamente para o Porto. E sucedeu-se uma situação aborrecida para as tripulantes da ambulância. Elas não podiam levar-me para o Porto com aquela guia de transporte porque caso acontecesse alguma coisa seriam as responsáveis e como tal tínhamos que voltar a Viana do Castelo para ir buscar uma nova guia de transporte. Comecei a ver a minha vida a andar para trás! Já tinha andado cerca de uma hora de ambulância. Estava nauseada e aquela posição já estava a ficar incomoda. Regressar a Viana e ir para o Porto a seguir implicava pelo menos mais 2h. A enfermeira suplicou que não viéssemos a Viana e que me levassem para o Porto. Eu estava com ameaça de parto pré termo e não podíamos perder tanto tempo. Houve momentos de hesitação. A renitência da condutora era legítima mas os argumentos da enfermeira também o eram. Telefonaram para o quartel e lá conseguiram contornar a situação. Íamos directas para o Porto. 

Quando chegamos ao Porto fui encaminhada para a urgência obstétrica. O meu marido já estava na sala de espera e entrou comigo. Eram cerca das 19h. Fui avaliada por um médico. Fez ecografia, toque para ver a dilatação, leitura da carta de transferência e dos relatórios todos. Cerca de uma hora depois  perguntou-nos se estávamos elucidados para as sequelas com que a Carminho poderia nascer. Respondemos em uníssono “Não!”. Ninguém nos tinha falado em sequelas.

Gravidez | Tive que ser internada

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Apesar do parto só estar previsto para Outubro estava a aproximar-se o mês de Agosto e com ele uma agenda muito preenchida para todas as pessoas, no mês de Setembro a minha disposição para festas já não devia ser muita, dado o tamanho que previa que a barriga fosse atingir, por isso o babyshower das princesas foi feito no final de Julho. Uma festa linda preparada por uma amiga muito prendada e dedicada em que estivemos rodeadas pelas pessoas mais importantes para nós. Como as coisas estavam, finalmente, a correr bem aproveitei a festa sem qualquer preocupação. 


A meio dessa semana tinha uma consulta de rotina com o médico que me estava a seguir. Ele ia de férias no final dessa semana e antes queria avaliar as duas pequenas para se certificar que estava tudo bem e deixar as coisas encaminhadas para os quinze dias que iria estar ausente. 

De manhã cedo fui então à consulta, desta vez numa quarta-feira, e fez a ecografia. No final quando já estávamos sentados à secretária disse-me com ar apreensivo: Vera, isto está tudo a descambar! E naqueles segundos seguintes em que nenhum dos dois disse nada passou-me um milhão de coisas pela cabeça. Síndrome de transfusão feto fetal novamente? Eu não vou suportar fazer aquele tratamento novamente. A Carminho não está bem? Alguma coisa que ainda não tenha acontecido? E a medo lá perguntei: o que se passa agora? A resposta era a que eu não queria efectivamente ouvir. A Carminho estava com alteração no fluxo de sangue e estava novamente em risco e eu ia ter que ser internada para uma vigilância diária e para fazer corticoterapia para maturar os pulmões das meninas porque a qualquer momento podiam ter que fazer o parto. Naquele momento petrifiquei. Estava grávida de 28 semanas. Ficar internada? Podem ter que nascer tão prematuras? E a Constança vai ficar sem mim? 

Voltei a perguntar a medo: 

- Durante quanto tempo? 

- À partida até ao final da gravidez. 

Desatei a chorar. Até ao final da gravidez? Faltam mais de dois meses! Eu não posso ficar longe da minha filha durante tanto tempo! A Constança tinha 16 meses.

O médico disse que podia ir a casa organizar as minhas coisas, preparar tudo e no dia seguinte ia ter com ele ao hospital para me internar. Sai da consulta e atravessei o hospital a chorar desalmadamente. Eu não ia aguentar tanto tempo longe da minha filha. Eu sabia e percebia que era para o bem das irmãs mas a Constança precisava tanto de mim e eu dela! 

Liguei a uma amiga e fui ter com ela, precisava de falar e pôr as ideias no lugar. De seguida fui para casa fazer as malas. Não tinha nada preparado, era demasiado cedo para pensar nisso, e não tinha metade dos bens da lista que pediam para mim. Apenas tinha lavado as primeiras roupas das gémeas e consegui fazer a mala delas. Estava tão bloqueada que o meu cérebro nem atingiu que elas não iam precisar de roupa se nascessem naquele momento. Iriam para a neonatologia e a única “roupa” que iam usar era uma fralda descartável e um lençol para as cobrir. Separei alguns pijamas meus e coloquei também na mala. A minha mãe depois ia tratar de me arranjar o que faltava na lista. Eu estava preocupada com as camisas de abrir à frente, como se eu fosse amamentar as minhas filhas naquele momento! Fui buscar a Constança à creche e colei-me a ela. Aproveitei cada segundo até ela adormecer. E só chorava por pensar que tão cedo não ia ter aqueles momentos com a minha filha. Um sentimento de culpa horrível. Ela não escolheu ter irmãs tão cedo e eu não tinha o direito de a privar da mãe. Que irresponsabilidade a minha! 

No dia seguinte fomos levá-la à creche e com o coração despedaçado dirigíamo-nos ao hospital. Não conseguia acreditar que aquilo me estava a acontecer. Quando cheguei ainda perguntei ao médico se não podia ir para casa e dirigir-me todos os dias ao hospital para fazer uma ecografia e fazer assim a vigilância. Não! Era mesmo necessário ficar internada. Fiz logo a primeira dose de corticóide e fui para a enfermaria. Tinha uma companheira de quarto, muito simpática por sinal, mas a minha disposição era péssima. Sinceramente ela ajudou-me muito naquele dia porque enquanto falava comigo eu não tinha tanto tempo para pensar. Era brasileira e o sotaque e as expressões que usava ainda me arrancaram uns sorrisos. Mas só durante o dia. Quando escureceu comecei a pensar na rotina toda que estaria a ter naquele momento em casa com a Constança e abri novamente a torneira. Não consegui jantar quase nada. Só chorava.  Pensava na hipótese das minhas filhas terem que nascer tão cedo e nos riscos que isso acarretava. Pensava na Carminho que depois de tantas superações não merecia passar por mais esta. E assim foi pela madrugada dentro. Nem consigo descrever o que senti naquela noite. Era uma tristeza tão mas tão grande, um sentimento de impotência, um vazio. Devo ter adormecido já depois das 4h. 

No dia seguinte acordei, tomei banho e depois de tomar o pequeno-almoço deitei-me novamente. Comecei a ter uma sensação estranha. A barriga ia-se contraindo. Como o parto da Constança foi induzido com ocitocina não cheguei a ter as primeiras contrações menos dolorosas, mais curtas e mais espaçadas. Comecei logo com contrações fortes, dolorosas é pouco espaçadas. Por isso não sabia muito bem se aquilo que estava a ter eram contrações. Chamei a enfermeira e disse-lhe que achava que estava com contrações. Esta alertou o médico e comecei a fazer CTG. Quando viu o traçado verificou que estava em trabalho de parto. Oh meu Deus! Como é possível? 

Fui encaminhada ao gabinete médico e avaliada. O médico não era de muitas palavras e não se alongou muito em explicações. Ia começar a fazer medicação para parar o trabalho de parto e iam tratar da minha transferência. Telefonei ao meu marido para ir para o hospital o quanto antes. 

Pouco tempo depois de ter iniciado a medicação as contrações pararam. O médico veio à enfermaria dizer que estava tudo tratado, eu ia para Coimbra. Coimbra?! Tão longe? Tinha sido o sítio mais perto onde arranjou uma vaga. Pedi-lhe que tentasse uma vaga mais perto por causa da Constança e a resposta dele apesar de assertiva magoou-me muito: - a sua filha que está em casa está bem, pense só nestas que neste momento não estão nada bem.  Eu sei que era mesmo assim que devia pensar mas não conseguia. Era demasiado duro estar tão longe da minha filha. Pedi que a fossem buscar para estar um pouco com ela e levaram-na ao hospital. Estive com ela até à hora de ser transferida. Entretanto veio outro médico avaliar-me e dizer-me que conseguiu uma vaga no Porto. Que bom! Porto era bem mais perto. 

A ambulância chegou e era a hora de ir para um hospital que não conhecia mas que diziam ser excelente e estar nos melhores do país. O Centro Materno Infantil do Norte (CMIN) ia ser a primeira casa das minhas filhas. 

E lá fui eu em direção ao Porto. Ou não...

Gravidez | E a Carminho não dava tréguas

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Ao contrário da ecografia morfológica da Constança, em que ia apreensiva porque só fazia duas ecografias por trimestre, desta vez ia muito calma. Fazia ecografias todas as semanas e a única coisa que poderia acrescentar esta ecografia era avaliar com mais rigor a anatomia das bebés e verificar se a Carminho estava a crescer normalmente. Sabia que a Síndrome de Transfusão Feto Fetal poderia reincidir mas estava francamente confiante de que isso não iria acontecer. Aparentemente não havia motivos para mais preocupações. 

Em ecografias de gémeos avalia-se primeiro um feto e só depois o outro e são identificados como 1 e 2 (a ordem é a ordem com que nascem). Só passam a ter nome a partir do momento em que nascem. A primeira vez neste processo todo em que me perguntaram o nome delas foi na sala de partos para as identificarem.


A ecografia começou e o médico foi dizendo que estava tudo bem com a Carlota. Depois de avaliar todos os parâmetros e verificar que aparentemente não havia alterações começou a avaliação à Carminho. Estava a crescer dentro do que seria previsível, mantendo a sua curva de crescimento, contudo mantinha uma restrição de crescimento grave o que já fazia prever que fosse nascer abaixo do peso e que não iria escapar a uns dias na neonatologia. O líquido amniótico tinha aumentado bastante desde a última ecografia e os rins e bexiga estavam normais. Excelentes notícias. A minha piolha estava fora de perigo! Ou não. 


Como ela não é rapariga de deixar a mãe descansada por muito tempo tinha que se meter noutra alhada. Ou noutras alhadas! Normalmente o cordão umbilical possuí duas artérias e um vaso. O da Carminho tinha uma artéria umbilical única. Pelo que me explicou o médico isto não acarreta problemas de maior para o feto mas pode estar associado a outro tipo de problemas como problemas cardíacos e Síndrome de Down, por exemplo. Nesta altura devia ter entrado em pânico. Só não entrei porque em Londres, através do sangue que colheram aos fetos, tinham descartado completamente a possibilidade de Síndrome de Down e esse exame é 100% fiável. Em contrapartida quando o médico fez a avaliação do coração verificou que havia outro problema e que ia ter que me enviar para o Hospital de Braga novamente. A Carminho tinha um derrame pericárdico, basicamente tinha acumulado líquido entre as membranas do coração, tinha que ser seguida lá por Cardiologia Pediátrica para realizar ecocardiografia fetal. E aqui sim havia riscos, um comprometimento da função cardíaca. 


O médico para brincar um pouco e atenuar a minha preocupação ainda disse algo do género: - Esta rapariga não nos facilita a vida! Tentei não stressar e brinquei: - Depois disto tudo vai ficar de castigo até aos 18 anos!!


À parte disso estava tudo, aparentemente, bem. Como a Carminho tinha uma restrição de crescimento grave era importante fazer algum repouso para ela engordar. Isto é muito fácil quando não se tem uma filha de 14 meses em casa a precisar de mimo e colo da mãe. Não poder dar colo à Constança quando ela suplicava por ele era o que mais me magoava. 


Mais um pedido de consulta urgente para o Hospital de Braga e em poucos dias recebi uma chamada com a marcação da consulta. Sabia que esta situação poderia reverter naturalmente até nascer e por isso tentei não entrar em pânico. Comparativamente aos problemas anteriores este não era o que mais me assustava. E depois mentalizei-me que o problema já estava lá e que o facto de eu stressar não iria mudar rigorosamente nada e por isso continuei a minha vida naturalmente, embora tentando estar o máximo de tempo possível sentada ou deitada.


Uma semana depois tive consulta e confirmou-se, tinha um derrame pericárdico. E numa breve explicação a médica disse-me que realmente poderia reverter até nascer e caso não revertesse depois de nascer continuava a ser vigiada a fim de se perceber quais as próximas intervenções. Como não sou de fazer uma tempestade num copo de água estava calma e optimista que ia correr tudo bem.  Iria ter consultas regularmente no Hospital de Braga para fazer ecocardiografia fetal. Mediante a evolução iria verificar-se se seria conveniente nascerem em Braga. Esta parte já não me agradava tanto. Tinha tido uma óptima experiência na obstetrícia em Viana quando a Constança nasceu e queria muito que as pequenas também nascessem lá. O factor distância também pesava muito até porque a probabilidade da Carminho ir para a neonatologia era elevada e não me agradava muito a ideia de ir para tão longe todos os dias com mais duas crianças em casa. Em Viana a logística seria bem mais fácil. Mas se nascer em Braga era o melhor para a Carminho então que fosse em Braga. 


Como as coisas, apesar de tudo, estavam bem encaminhadas aproveitamos um fim de semana prolongado para umas mini férias fantásticas na Costa Vicentina. Fui sem pensar nos riscos, descontraidament. Só quando regressei é que pensei no tamanho da loucura que cometi! Se as pequenas tivessem decidido nascer naquele fim de semana o que seria de nós com as nossas filhas prematuras internadas a mais de 400km de casa? Mas como acho sempre que essas coisas só acontecem aos outros fui sem qualquer receio nem preocupação. Nunca pus a hipótese das minhas filhas nascerem antes das 36 semanas, depois do susto inicial acreditava piamente que ia ter uma gravidez perfeitamente normal até ao final. E como ainda acredito no Pai Natal também acreditava que a Carminho ia dar um pulo e nem sequer ia precisar de passar pela neonatologia. Se tivesse lido mais testemunhos reais ia perceber que ter uma gravidez normal, sem necessidade de internamento, e nascer depois das 36 semanas é algo raro numa gravidez monocoriónica.




Uma semana depois tive novamente consulta de Cardiologia Pediátrica e o derrame estava a regredir lentamente. Iria ser reavaliada duas semanas depois mas essa consulta nunca chegou a acontecer porque entretanto a nossa vida deu uma volta de 180 graus.  

Gravidez | Um pequeno desabafo antes de prosseguir

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Quando me propus a criar este blogue sabia que ia ter que remexer em passagens da nossa vida que tinham sido particularmente difíceis e que nos tinham magoado profundamente. Não fiquei preocupada porque ultrapasso facilmente as situações. Deixo o passado exactamente no lugar dele, no passado. Magoa, passa, cicatriza e sigo em frente. 

Desde que comecei a descrever as várias fases e complicações da gravidez senti que tal como previa estava a ser fácil e fiquei feliz por perceber que  já tinha as feridas bem cicatrizadas. E assim foi até chegar “a Londres”. Aí o caso mudou de figura. Abrir aquela gaveta não foi tão fácil quanto esperava, foi como se estivesse novamente a reviver todo aquele pesadelo. Não consegui escrever cada post  numa só vez e tive necessidade de ir parando para respirar e voltar a escrever mais tarde. Foi um episódio da minha vida que jamais esquecerei porque foi verdadeiramente traumático tanto psicológica como fisicamente. 


Tenho noção que esta história parece um pouco surreal e até algo exagerada mas, infelizmente, tudo o que tenho relatado e o que ainda irei escrever corresponde 100% à realidade, sem qualquer tipo de exagero e/ou dramatização. E há imensos pormenores que vou deixando pelo caminho para não se tornar cansativo para quem está a ler. Não sou médica obstetra nem enfermeira especialista em saúde materna e obstetríca por isso tudo o que vou descrevendo a nível técnico (complicações, riscos, tratamentos, procedimentos) é baseado exclusivamente no que os os médicos me foram dizendo e explicando. Apesar de ser enfermeira e de ter noções de obstetrícia não estava nada por dentro destas especificidades e isso implicou muita necessidade de esclarecimentos médicos e procura de informação sempre que algo de novo surgia (tirei praticamente o mestrado!!). 

Parte deste percurso foi uma surpresa para aqueles que nos rodeiam porque ao longo da gravidez não fomos falando com muitas pessoas acerca disto, apenas a nossa família e poucos amigos sabiam. Não com intenção de esconder mas porque se falássemos daria margem a perguntas que naquele momento não estávamos disponíveis para responder e a comentários sem conhecimento de causa que não estávamos dispostos a ouvir nem argumentar. A verdade é que as preocupações eram tantas que queríamos poupar energias para o que realmente interessava naquele momento. Aos que foram sabendo e nos foram perguntado explicávamos sempre o que se estava a passar mas na realidade queríamos evitar “tocar na ferida” que era recente e por isso preferimos guardar só para nós.

Obrigado de coração a todos os que nos tem acompanhado e dando força. Que se interessam e preocupam connosco e que perdem um pouco do seu tempo a ler-nos. E obrigada por todas as palavras de incentivo. Como já disse várias vezes os louros e admiração ficam todos para as nossas filhas, elas sim são umas verdadeiras guerreiras vitoriosas. 

Gravidez | Chegou o dia de saber quantos corações batiam dentro da minha barriga

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As minhas consultas de obstetrícia eram sempre à terça-feira. Já tinha passado por terças-feiras difíceis e cheias de ansiedade mas esta era aquela em que estava mais nervosa. As noites que seguiram ao tratamento foram muito mal dormidas sempre a pensar se havia ou não vida dentro do meu útero, se estariam as duas vivas ou apensas uma. A noite que antecedeu a consulta foi a pior. Levantei-me de manhã sem ter percebido se tinha chegado a adormecer. O meu coração batia tão rápido e forte que parece que ia sair disparado. Durante esses dias fui tentado interiorizar que não adiantava de nada estar ansiosa, que o que tivesse que ser seria e não havia forma de eu fazer nada e que aquele stress era prejudicial para os bebés. Mas como é que se controla isto? 

Fomos levar a Constança à creche e seguimos para o hospital. Quando cheguei à sala de espera o nervosismo disparou. Uma grávida de gémeos já em fase avançada da gravidez estava a tentar conversar comigo e eu geralmente até sou muito faladora mas naquele dia não conseguia ter um raciocínio lógico nem um discurso fluente. Só lhe pedi desculpa por estar tão nervosa e não estar a dizer nada de jeito. Por azar nesse dia fui a última, pelo menos das que estavam na sala de espera, a ser atendida. Fui chamada ao início da tarde. Entrei e o médico quis saber pormenores do tratamento em Londres e fui contando meia atabalhoada enquanto ele lia o relatório. Ficou incrédulo com aquilo que lhe contei (os pormenores do tratamento) e nas consultas seguintes falava sempre acerca disso ora comigo, ora com colegas médicos que estivessem com ele no gabinete. 

E chegou o momento! Deitei-me na marquesa e era a hora de saber o que se passava dentro da minha barriga. Começou por avaliar o feto maior e disse-me que estava ótimo. Líquido amniótico com volume perfeito, bexiga bem, fluxos normais, tudo óptimo. - Que bom doutor! Mas e o outro? Não me chega um com vida, eu quero os dois! 

Procurou então com o ecografo o segundo e depois de algum tempo diz-me que aquele pequenino estava a ir muito bem. (A ir muito bem?! Está vivo? Está vivo!!  Eu sabia que depois de tanto sofrimento só podia acabar tudo bem!). Desatei a chorar. Os meus bebés estavam vivos! E já não ouvia mais nada do que o médico dizia. Já só passava no meu cérebro a palavra “vivos”. Contra todas as probabilidades eles superaram-se. Que orgulho da garra de viver destes dois! 

O médico continuou a avaliar minuciosamente e foi dizendo que a bexiga já tinha aumentado de volume, o líquido amniótico já estava a aumentar e agora estava confiante que aos poucos ele ia desenvolver. Que não ia conseguir apanhar o percentil do outro mas ia desenvolver dentro do seu percentil. 

Como as coisas já estavam a estabilizar quisemos então saber o sexo. O médico ainda brincou a dizer que estivemos em Londres com uma câmara apontada para eles e que aí é que se via tudo mas explicamos o porquê de não querermos saber (ler no post anterior).  

- Qual é a vossa preferência? 

- Meninas! (Dissemos os dois. Embora naquele momento e depois de tudo já nos era quase indiferente e queríamos era que viessem com saúde)

- Pronto! Elas fizeram-lhes a vontade!

E assim, ao fim de tanto tempo conseguimos ter um dia feliz. Voltava a ter consulta na semana seguinte para fazer a ecografia morfológica. 

Tivemos uma semana muito tranquila. Finalmente ia ter uma gravidez normal.Aproveitei para começar a pensar no enxoval e para escolhermos os nomes. Antes de eu saber que eram meninas já tinha dito que se fossem meninas e eu pudesse escolher sozinha seriam Carlota e Carminho. Carlota sempre foi o meu nome de eleição já na gravidez da Constança mas o pai não achava piada e tive que excluir da minha lista. Começou a soar-lhe bem entretanto e aceitou que uma se chamasse Carlota. Carminho foi mais complicado. A segunda opção (em comum) para a Constança era Teresa (que continuo a adorar e vou guardar para a próxima quando me sair o Euromilhões!!!) e manteve-se como uma opção para a segunda gêmea. Eu gostava também de Carolina e Benedita (que faria todo o sentido pelo significado do nome) mas o pai não gostava de nenhum dos dois e excluímos. Como esta bebé era muito pequenina chegamos à conclusão que Carminho era o nome que mais se identificava com ela. E tínhamos um feito! Aos quatro meses e meio tínhamos escolhido os nomes (a Constança só teve fumo branco  aos sete meses e meio!). 

Como já nos fomos habituando essa felicidade e estabilidade só durou até ao dia da ecografia morfológica.

Gravidez | Mais duas picadas e a saga de Londres termina aqui

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Deitei-me novamente na marquesa e as pessoas que estavam na sala eram as mesmas. Na sala vidrada entraram novamente cerca de vinte médicos. Quando o meu marido me disse que estavam lá pensei logo que havia mais alguma coisa. Não iam estar ali se fosse para assistir a uma simples ecografia para verificar o estado dos fetos. 

Antes do Professor Nicolaides entrar pedi que me substituíssem o penso (se é que se pode chamar assim) porque estava todo repassado de sangue. Tiraram aquele e colocaram um penso rápido. Sim, um penso rápido!! Escusado será dizer que na hora seguinte tiveram que o substituir umas dez vezes porque estava sempre a escorrer sangue. Aproveitei para perguntar à médica espanhola se não trabalhavam enfermeiros naquela clínica. Não! Apenas médicos, administrativas e algumas freiras que trabalhavam como auxiliares. Bem me parecia!  Era impensável um enfermeiro permitir um penso daqueles.


O médico entrou e começou a fazer a ecografia enquanto nós seguíamos tudo no ecrã à nossa frente. Havia batimentos cardíacos nos dois fetos. Não sei descrever a felicidade que sentimos! Os nossos bebés estavam vivos! 


E eis que a porta da sala se abre e entra novamente o carrinho com o material. Estava de costas e não vi mas quando o meu marido me disse que era o carrinho que usaram no procedimento anterior entrei em pânico e disse-lhe que não aguentava passar novamente pelo mesmo. Não ia suportar outra vez aquela dor. Não me explicaram nada e por isso perguntei ao médico o que se estava a passar. 


Enquanto se preparava para fazer outro procedimento, que eu ainda não sabia qual era, foi-me explicando que no resultado das análises que tinham feito o feto mais pequeno estava com uma anemia grave e o feto maior com policitemia (uma concentração muito elevada de glóbulos vermelhos que torna o sangue demasiado viscoso, grosso) e que como tal iriam introduzir uma agulha até ao cordão umbilical do feto maior e administrar medicação para reverter esta situação, caso não o fizessem estava numa situação de risco com sobrecarga cardíaca. Li depois no relatório que este procedimento tinha o nome de cordocentese. (Caramba a medicina consegue sempre surpreender! Fazem coisas incríveis.)


Como estava traumatizada com o procedimento anterior perguntei se era doloroso. Disse-me que não. Pegou então numa agulha enorme e grossa e sem ter dado anestesia introduziu-a através do abdómen até ao cordão umbilical enquanto nós víamos tudo através do ecrã. Administrou lentamente a medicação e no final mais um penso rápido. Fiquei sem perceber o conceito de dor para o médico. Numa escala de 0 a 10 a dor que senti no procedimento anterior foi de 10 mas esta classifico à vontade como 5. Bem mais suportável mas ainda assim bem dolorosa. 


Já tinha passado e já podia respirar de alívio. Ou talvez não! 


A médica espanhola disse que o feto maior tinha muito líquido amniótico e que iriam ter que retirar líquido amniótico. - A sério? Mais uma picada?! Esta tortura não acaba? 


Uma agulha igual à anterior, novamente sem anestesia e uma picada até à bolsa amniótica. Desta vez doeu bem mais do que a anterior. Retiraram três seringas de 100ml de líquido amniótico. 


Como já nada era previsível questionei se já tinham terminado. Por enquanto não era necessário fazer mais nada. 1h depois seriam novamente reavaliados. Levantei-me e voltei para a sala de espera onde me deitei novamente no sofá. 


Fui chamada 1h depois e já ia a medo. Não aguentava mais nada. Estava cansada física e psicologicamente. Só queria poder voltar para a minha casa. 


O médico reavaliou os dois fetos e o maior estava bastante melhor com a medicação que lhe administraram. Podia ir embora e queria repetir a ecografia no dia seguinte de manhã. Ficou chocado quando lhe disse que às 6h30 tinha o voo para regressar a Portugal. Disse-me que então devia ser avaliada nos próximos três dias. Os nossos bebés estavam vivos mas isso não garantia nada. O médico explicou claramente que a morte fetal raramente ocorre imediatamente a seguir ao tratamento e que os próximos dias eram a prova de fogo para eles. Estavam separados e cada um teria que lutar por si. No caso do bebé maior havia risco porque estava habituado a ser beneficiado pelo mais pequeno e agora tinha que se “desenrascar” sozinho e no caso do mais pequeno porque tinha uma restrição de crescimento grave e uma anemia severa. Para além disto havia ainda os riscos associados aos procedimentos que foram feitos e que triplicaram visto que tinham sido três procedimentos. Risco elevado de ocorrer aborto espontâneo, queda da frequência cardíaca fetal e ruptura das membranas. O recomendado era repouso absoluto. Como é que eu ia fazer repouso absoluto se o hotel ficava a 40 minutos a pé e se já eram 20h30 e às 3h30 estava o táxi à porta do hotel para nos levar ao aeroporto?


Aguardamos pelo relatório médico para trazer para Portugal e nesse espaço de tempo apareceu uma administrativa com um documento que nos entregou ao mesmo tempo que perguntava se íamos pagar em dinheiro ou cartão de crédito. Quando vi o montante quase desmaiei! Expliquei que não seríamos nós a pagar e que tinham que enviar a conta para o Hospital de Braga. Não ficou nada satisfeita com a situação e chamou uma médica. Ainda contestaram um pouco porque, pelo que percebi, nos tratamentos que tinham realizado anteriormente demoraram imenso tempo a pagar. 



Saímos da clínica e quando pus os pés na rua, um deles descalço porque me rebentou uma sandália e não a consegui calçar, deu-me um ataque de choro. O meu sonho naquele momento era ir imediatamente para a minha casa e abraçar a minha filha. Não queria ficar mais tempo ali. Precisava urgentemente do conforto dos meus. Tinham sido muitas emoções para um dia só e precisávamos da nossa casa e da nossa família. 


Andamos cerca de 10 minutos até uma paragem de autocarro e apanhámos um autocarro até ao hotel. Chegamos ao hotel já passava das 21h e eu só queria dormir. Os três pensos rápidos estavam ensopados e não fui prevenida para os trocar. Nunca me passou pela cabeça que me deixassem sair com pensos rápidos. Valeram-me dois pacotes de lenços que levei. Ainda tinha imensa dor e felizmente tinha levado medicação. Na clínica deram-me um voltaren em supositório (!!) para administrar se necessário. 



As 3h30 apanhamos o táxi e cerca de 1h depois estávamos no aeroporto. Sob risco de aborto e ainda toda dorida tive que andar 40 minutos a pé dentro daquele aeroporto até chegar à porta de embarque. Às 6h40 o avião descolou e só quis esquecer que tinha vivido aquele pesadelo. O dia 25 de Maio vai ficar para sempre marcado na nossa memória como o dia em que as minhas filhas foram salvas pela primeira vez mas também como um dia de muito sofrimento físico e psicológico. Agora queria chegar à minha casa para poder abraçar a minha filha e fazer o repouso absoluto que já devia estar a ser feito. 

Era sexta-feira e só ia ter consulta com o meu médico na terça-feira. Durante esse tempo vivemos num tormento. Não sabíamos se os nossos bebés estavam ou não vivos. Ainda ponderei ir a urgência no domingo mas aguentei a minha ansiedade e esperei. Estava grávida de quatro meses e meio e os movimentos fetais eram quase inexistentes por isso não tinha certezas de nada. Mas honestamente estava confiante. Depois de tudo o que passei não me iam fazer uma coisa dessas! Coincidência ou não nesse fim de semana vi um entrevista de uma jornalista da TVI que tinha passado pelo mesmo e que também tinha ido a Londres. Tinha perdido um dos filhos. Desliguei disso e pensei que o meu caso ia ser de sucesso.


Gravidez | Pensei que ia morrer com tanta dor (Londres parte II)

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Na sala estavam as duas médicas que me tinham avaliado inicialmente e uma médica espanhola, que acabou por ser a tradutora. À minha frente estava um plasma enorme, outro um pouco mais pequeno e dois ainda mais pequenos. Atrás da marquesa a parede era toda vidrada com visibilidade total para uma sala um pouco mais pequena do que a sala onde se ia realizar o tratamento. O meu marido tinha pedido para não assistir porque não se sente confortável e podia acabar por desmaiar mas a médica não lhe deu outra hipótese, tinha mesmo que entrar. Ficou atrás de mim encostado à marquesa e disse-me que tinham acabado de entrar cerca de 20 médicos para a tal sala vidrada. Não me surpreendeu porque o médico do Hospital de Braga já me tinha alertado que estavam sempre muitos médicos a assistir. 

A médica espanhola explicou-nos que 80% dos médicos que trabalham nessa clínica são médicos de vários países que vão para lá, durante cerca de três meses, para aprenderem estes e outros procedimentos com o Professor Nicolaides, o médico que viria realizar o tratamento, porque  é o crânio da obstetrícia e a maior parte dos exames de diagnóstico pré natal foram descobertos por ele. Eu vim a constatar isso em Portugal, todos os médicos que encontrei depois do tratamento conheciam de alguma forma o Professor Nicolaides. 

Notei que o médico era uma pessoa que de certa forma os deixava intimidados porque estava um nervoso miudinho no ar e à medida que se aproximava a hora da sua chegada as médicas que estavam comigo na sala foram ficando um pouco stressadas. A porta abriu-se e só faltou fazerem-lhe uma vénia. Era um senhor que aparentava ter uns 50 anos, cabelo grisalho e despenteado, a tresandar a tabaco e vestido com fato e gravata. Cumprimentou-nos, apresentou-se e tirou apenas o casaco, mais uma vez não havia batas. Olhava para ele e fazia-me lembrar o Dr. House, pelo estilo descontraído e brincalhão mas algo sarcástico. 

Começou por repetir a ecografia para ver em que local ia introduzir o fetoscópio. Perguntou a uma das médicas onde deveria introduzir e ela a medo respondeu, e levou uma repreenda. Perguntou à outra e repetiu-se a história. Elas tentaram argumentar mas ele nem lhes deu hipótese. Entrou um carrinho com o material. Ele calçou as luvas, pegou na seringa com a anestesia e administrou no local. Nem um minuto depois estava a fazer um corte com um bisturi e eu a contorcer-me com dor. Depois do corte pegou no bisturi na vertical e espetou (literalmente), fez movimentos rotativos para ir abrindo o orifício. E eu gritava e chorava com dor. Pedi que esperasse um pouco porque não estava a suportar mas ele mandou-me respirar fundo e voltou a espetar mais para baixo e a fazer novamente movimentos rotativos. Queria pensar que era para o bem dos meus bebés mas a dor era imensa e não me permitia pensar em nada a não ser naquele momento horrível. Pensei que ia morrer de dor. Se o meu marido não tivesse presenciado tudo eu ia achar que tinha delirado e que aquilo não aconteceu. Nunca sofri tanto em toda a minha vida. 

Introduziu o fetoscópio e ligou a câmara. No ecrã gigante que estava à minha frente estavam os meus bebes. A câmara estava em frente deles e a imagem era tão nítida e real. Vi-lhes o cabelo, a cara, as mãos. As feições todas. Eram lindos! Perguntou se queríamos saber o sexo. Não quisemos. Naquele momento não sabíamos se iriam sobrevier e não queria criar mais expectativas. Optamos por desistir de confirmar o sexo, por não escolher os nomes nem comprar nada. Já chegava ficar com os seus rostos gravados na memória. 

Geralmente o procedimento demora cerca de 30 minutos, o meu durou cerca de 1h15.  O fetoscópio andava de um lado para o outro  e o médico suspirava e dizia que estava muito complicado para encontrar o local onde devia encerrar as ligações vasculares. E assim foi durante cerca de 25/30 minutos. Foi sempre brincando para nos deixar mais descontraídos mas eu continuava com dor e não conseguia descontrair. 



Carregou então no laser e no ecrã viu-se uma espécie de fogo a sair e ao mesmo tempo a expressão e os movimentos dos meus bebes era como se estivessem a ser electrocutados. Preferi não saber se aquilo lhes causava dor mas acho que sabia a resposta mesmo sem perguntar. Utilizou o laser umas cinco vezes e a expressão foi sempre a mesma. Ao fim desse tempo verificou através da câmara que já tinha terminado e que estava resolvido. 

- E os bebés estão bem? - Daqui a uma hora avaliamos. Mas antes disso vamos colher sangue a ambos para análise. 

E foi colhida uma seringa de sangue a cada um. Disse-me que ia beber um copo e que voltava 1h depois para reavaliar.

Eu sentia-me fraca e com muita dor. Em Portugal aquele corte dava direito a dois ou três pontos mas lá foi-me colocada uma compressa dobrada ao meio e adesivo castanho a fazer uma cruz em cima. Nem compressão fazia para parar a hemorragia (fiz eu com a mão durante 1h). Pensei que se fizéssemos um penso daqueles em Portugal os nossos colegas até se riam de nós. E disseram que me podia levantar e ir para a sala onde esperei anteriormente. Não sabia bem como ia conseguir levantar-me mas o meu marido ajudou-me e a muito custo lá fui. Tensões arteriais também não se avaliam! Estava pálida e sentia que ia desmaiar. Deitei-me no sofá e deixei-me estar quietinha. A pontualidade britânica não falhou e 1h depois fui chamada novamente. Mas afinal não foi só para reavaliar.

Gravidez | O verdadeiro pesadelo em toda a gravidez foi vivido em Londres (parte I)

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Já tínhamos estado em Londres e desde aí passou a ser a nossa cidade de eleição (depois de Viana do Castelo, claro!!). Desta vez o motivo que nos levava lá não era o melhor e para além da preocupação com o tratamento ia verdadeiramente apreensiva por causa dos atentados no Reino Unido. Tinha acontecido um em Londres em Março desse ano e dois dias antes da nossa chegada outro em Manchester. Não conseguia andar sossegada na rua. Só pensava que se nos acontecesse alguma coisa a Constança ficava sem pais. 


O hospital era no centro da cidade e ficamos alojados também no centro, a cerca de 30 minutos a pé do hospital. Como o tratamento era só no dia seguinte aproveitamos aquele dia para dar uma volta nas redondezas do hotel e tentar abstrair-nos um pouco. A noite foi interminável, contei as horas todas. Se por um lado estava confiante, por outro tinha muito medo por não estar preparada para reagir caso corresse mal. 



Chegou o dia! E com ele um nervoso miudinho. 12:30 era a hora que tínhamos que estar no hospital. Não me tinham dito se podia tomar o pequeno-almoço mas como não sabia que tipo de anestesia me iam dar optei por não comer nada, não fosse chegar lá e não poderem fazer o tratamento. Às 11h saímos do hotel de mapa na mão e lá fomos nós confiantes. Depois de chegar a Londres acreditei piamente que iria correr tudo bem. Eu não ia para tão longe para ser de outra forma! Chegamos à recepção do hospital mas afinal não era ali, era uma clínica num polo separado do hospital, a cerca de 10 minutos a pé. 

A clínica, ao contrário do hospital, era um edifício moderno daqueles que quando entramos ficamos boquiabertos com tanto luxo (XPTO como se costuma dizer), onde só há consultas de obstetrícia e procriação medicamente assistida. Dirigimo-nos ao balcão e entreguei o relatório que levava de Portugal. Deram-me um questionário enorme para preencher. O nosso inglês é vergonhoso, um inglês primário e começamos a ter imensas dificuldades em dialogar. Quanto ao questionário o Google tradutor ajudou.

Passados uns 15 minutos fomos chamados por uma mulher linda, toda produzida e vestida como se fosse a uma festa. Cumprimentou-nos com dois beijos e apresentou-se pelo nome. Pensei que seria uma administrativa, visto que já tinha visto bastantes mulheres com a mesma apresentação, e que nos iria encaminhar até ao médico. Fiquei agradavelmente surpreendida pela forma simpática e acolhedora como tratavam os utentes. Entramos num gabinete e estava outra mulher igualmente vistosa e bem vestida que também se apresentou pelo nome e nos cumprimentou da mesma forma. Pediram que me deitasse na marquesa e começaram a fazer a ecografia. Eram médicas. Pensei em algumas futilidades: caramba, elas aqui trabalham assim?! Onde estão as batas? Não deve ser muito prático trabalhar um dia inteiro com uns saltos de 15cm! Iam conversando durante a ecografia e fazendo algumas perguntas. No final encaminharam-nos a uma sala muito confortável com um sofá enorme, plasma, casa de banho e um pormenor que me saltou à vista, uma mesa de centro com uma caixa de lenços em cima. Aquele pormenor dos lenços mexeu comigo. Percebi que aquelas eram as salas onde os pais recebiam notícias menos agradáveis. Havia uma sala para cada casal e não nos cruzávamos. 

Cerca de meia hora depois entraram as duas médicas com o consentimento informado que nós teríamos que assinar. E começaram a (tentar) explicar tudo. Como estávamos a ter imensas dificuldades no diálogo foi chamar uma médica brasileira para traduzir tudo o que estava escrito naquele documento. 

Começou por explicar em que consistia o tratamento. Seria dada uma anestesia local e introduzido um fetoscópio até à placenta. O fetoscópio tem uma câmara e um laser e com o laser encerram as ligações vasculares entre os fetos para que o sangue não possa circular mais entre os dois. A taxa de mortalidade nesta síndrome varia entre 60% e 100% e caso ocorra morte de um dos fetos há 25% de probabilidade do feto que sobreviva ficar com sequelas. (Como é que ninguém nos tinha dito isto?!). Caso corra bem e ambos os fetos sobrevivam fica resolvido mas pode não ser definitivamente, pode voltar à posteriori.  


De seguida explicou os riscos. Risco de hemorragia da mãe. Risco de hemorragia dos fetos. Risco de infeção da mãe. Aborto espontâneo (30 em 100). Risco de parto pré termo.

E agora o que mais nos interessava. A probabilidade de sobrevivência. Em Portugal tinham-nos falado em cerca de 33% de probabilidade para cada um e 33% de probabilidade de sobreviverem os dois. Mas os números não eram estes e o nosso mundo desabou novamente. A médica explicou que o estado dos fetos já era muito delicado e que o tratamento devia ter sido feito mais cedo. O bebé mais pequeno pesava apenas 160gr e o maior 346gr. Havia apenas 10% de probabilidade de sobrevivência do mais pequeno e 40% de probabilidade de sobrevivência do maior. 

Mas porquê?! Porque depois de encerradas as ligações vasculares cada um ficava unicamente por sua conta. O feto maior estava habituado a viver beneficiado pelo mais pequeno e como tal podia não conseguir sobreviver quando tivesse que lutar sozinho e o mais pequeno porque estava realmente numa situação muito complicada, com uma restrição de crescimento grave. 

As lágrimas começaram a cair! E pedimos uns minutos a sós. Precisávamos de pôr as ideias no lugar e pensar. Eu sabia que aquela caixa de lenços não estava ali por acaso. 

Uma revolta muito grande apoderou-se de nós. Como assim?! Viemos quatro e arriscamo-nos a regressar só dois?! Viemos para tão longe para perder os nossos bebes?! Não foi nada disto que nos disseram! Porquê que demoraram quase três semanas a tratar de tudo? 

E naquele momento sentimo-nos completamente desamparados e abandonados. Um país que não era o nosso, uma língua que não dominávamos, a imensos quilómetros de casa, sem termos a nossa família por perto para podermos partilhar esta nossa dor e sermos consolados. A fragilidade emocional estava no auge e sentimo-nos mesmo tristes e sem apoio. 

Por momentos pensei não assinar aquele papel e deixar tudo ao cuidado da mãe natureza. O que tivesse que acontecer aconteceria. Mas a médica deixou claramente que se não avançássemos a probabilidade de perdemos os dois era de 100%. Mas mesmo assim pensamos em arriscar e esperar um milagre. Felizmente o meu lado profissional falou mais alto, foquei-me na ciência e tive bom senso. Não havia nada para pensar. O tratamento tinha que ser feito ou os nossos bebes estavam condenados.

Assinado o papel ficamos a aguardar a chegada do médico que iria fazer o tratamento. Disseram-nos que podíamos ir comer alguma coisa, já eram umas 15h e eu estava em jejum, mas não conseguia comer rigorosamente nada. A fome era nula!

O médico chegou por volta das 16h. Chamaram-me e deitei-me na marquesa. Era A hora, o tudo ou nada. E o verdadeiro pesadelo começou ali.