Mostrar mensagens com a etiqueta Neonatologia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Neonatologia. Mostrar todas as mensagens

Neonatologia | Levar um prematuro para casa

1 comentário
O dia da alta de um prematuro, após uma temporada na neonatologia, é o dia mais esperado pelos pais. Não é exagero dizer que foi um dos três dias mais felizes da minha vida, igualando-se ao dia do nascimento da Constança e ao dia do meu casamento. Mas foi também um passo que nos deixou muito apreensivos. É o dia em que se desligam os monitores e ficamos por nossa conta. Não podemos fazer mais leituras permanentes de saturações de oxigénio nem de frequência cardíaca e também não toca um alarme de cada vez que saem dos parâmetros normais. Essas leituras passam a ser feitas apenas com os sinais que elas nos passam e com um olhar atento da nossa parte. Não temos os enfermeiros a quem recorrer cada vez que temos dúvidas ou medos. Não temos uma sonda por onde administrar o leite quando não o bebem na totalidade. Levantam-se imensos receios que nos deixam apreensivos: e se não nos apercebermos de que não estão bem? E se não formos a tempo? E se precisarem de algo urgente e a ajuda não chegar a tempo? E se não comem? E se não engordam o suficiente? Não éramos pais se primeira viagem mas aqueles bebés tão pequeninos, de nem sequer 2kg, e tão frágeis exigiam de nós muito mais do que a Constança alguma vez exigiu. Como sempre, respirei fundo e tentei não dramatizar. O meu instinto de mãe ia ajudar-me a perceber se algo não estivesse bem. 

Levar um prematuro para casa é levar também uma bíblia de panfletos informativos com todos os sinais de alarme, todos os cuidados recomendados, toda a informação sobre o que era normal e anormal acontecer. Li cuidadosamente cada um deles. Precisava de estar perita na matéria para estar atenta a tudo. 

Levar um prematuro para casa é pôr um despertador a tocar religiosamente de 3/3horas para lhes dar de comer. Elas precisavam de engordar e era fundamental não falhar nos horários. É ficar stressado quando não bebem a totalidade do leite porque a nossa maior preocupação é o aumento de peso. É ficar desiludido quando não aumentam nada ou aumentam poucos gramas. É comprar uma balança própria para continuar a pesa-las em dias alternados e evitar as idas ao centro de saúde com receio de que possam ficar doentes.

Levar um prematuro para casa é morrer de medo que elas possam ficar doentes e terem que voltar para o hospital. Um vírus ou uma bactéria num prematuro pode ser fatal nos primeiros meses de vida. É ficar paranóico com a lavagem e desinfeção das mãos antes de tocar em cada uma delas e passar essa paranóia para a Constança que já o fazia sem termos que lhe dizer. É não permitir visitas, por indicação médica, e sermos mal interpretados e criticados por algumas pessoas que não compreendem a fragilidade do sistema imunitário de um prematuro e os riscos inerentes. É sair de casa única e exclusivamente para consultas médicas e mesmo assim irmos cheios de medo de que possam ficar doentes. É passar oito meses em clausura para protegermos as nossas filhas. 

Levar um prematuro para casa é termos imensas consultas, uma média de três por semana numa fase inicial. É acordar inúmeras vezes e ir inúmeras vezes ao berço quando estão a dormir para nos certificarmos de que a respiração está normal e de que estão bem. É ter medo de lhes tirarmos os olhos de cima por receio de que possam não estar bem e nós não nos apercebermos. 

Levar um prematuro para casa é morrer de medo de que, a qualquer momento, possamos ter que voltar para o hospital e a cada ida à urgência rezarmos para que estejam bem e não precisem de ficar internadas porque já não aguentamos passar mais tempo no hospital e vê-las sofrer.

Levar um prematuro para casa é passar noites e noites sem dormir porque elas não tem a rotina do sono definida (na neonatologia há sempre luz e por isso não há noite nem dia, dormem quando querem). É passarmos noites e noites a dormir sentados com elas em canguru porque era a única forma delas se sentirem seguras e dormirem.

Mas levar um prematuro para casa é acima de tudo querer ficar agarrados a elas tipo lapas para recuperar todo o tempo em que não o pudemos fazer. É passar horas com elas a dormir no nosso peito e não conseguirmos deita-las. É termos um brilho nos olhos cada vez que as deitamos no berço, que as vemos finalmente a preencher aqueles berços que durante tanto tempo estiveram vazios. É ficar radiante ao vermos as roupinhas, que até então eram largas e grandes, a ficarem preenchidas. É desejar esquecer todo o sofrimento que as vimos passar. É desejar que o tempo passe devagarinho para que elas fiquem bebés durante muito tempo para podermos aproveitar cada momento ao máximo. 



Neonatologia | Os enfermeiros da neonatologia

3 comentários
É inevitável falar de neonatologia sem falar daqueles profissionais incríveis que lá trabalham. Não descartando os médicos, que sempre foram do mais simpático e profissional possível connosco e a quem devemos a vida das nossas filhas,  e as auxiliares de ação médica que sempre foram incríveis connosco, a minha profunda admiração vai para aqueles que 24 sob 24h não tiravam os olhos das nossas filhas, os enfermeiros. E juro que não estou a puxar a brasa à minha sardinha!

Não me canso de repetir que os enfermeiros da neonatologia são seres especiais. Porque para além de terem a vocação para a enfermagem, parece que nasceram especificamente para a neonatologia. Sente-se isso ao vê-los trabalhar. Todos os dias dava por mim a admirar a forma como cuidavam daqueles seres minúsculos que tinham nas mãos. A cuidar dos nossos como se fossem deles.

Cuidavam das nossas bebés com o mesmo carinho, empenho e amor com que eu própria cuidaria sendo a mãe. Muitas vezes dava por mim a pensar que eles não precisavam de ser assim, podiam simplesmente fazer o trabalho deles mas o que eles faziam ia muito além do trabalho deles. 

Encantava-me o tom com que falavam com os bebés, os monólogos engraçadissimos que tinham com eles, a leveza do toque quando lhes iam prestar cuidados, a delicadeza com que o faziam, o ir à incubadora acalmá-los sempre que um deles chorava e os pais não estavam lá naquele momento, a preocupação pelo conforto e bem estar deles, a perspicácia com que percebiam quando algum não estava bem, a luta e o desejo para que tudo corresse bem, a alegria que manifestavam pelas pequenas vitórias que iam atingindo, o encanto com que lhes escolhiam roupinhas bonitas e à medida deles para lhes vestir (no Porto a roupa era da maternidade, não usavam nada nosso), os adjectivos carinhosos e fofinhos que lhes davam, o entusiasmo com que nos contavam as peripécias que as nossas bebés faziam quando não estávamos lá. Quando à noite regressava a casa vinha triste por deixá-las mas sempre confiante de que ficava lá alguém que cuidaria das minhas filhas como eu própria cuidaria. Presenciei muitas vezes estarem a fazer registos com um bebé, que estivesse choroso, ao colo ou num sling improvisado com um lençol. Assisti à quantidade de vezes que iam a um berço ou incubadora meter a chupeta na boca e aconchegar um bebé. 

Incrivelmente, com todo o trabalho que tinham em mãos com os bebés, ainda conseguiam ter tempo para cuidar de nós, pais. Porque um enfermeiro de neonatologia não cuida só dos bebés, cuida também dos pais. Estão constantemente a ter que responder a um milhão de dúvidas e respondem a cada uma delas com toda a paciência e calma. Dão o sorriso que precisamos num momento difícil, escolhem as palavras mais leves para nos darem uma notícia má, preocupam-se sempre com o nosso descanso e bem estar físico e emocional (quantas vezes nos disseram para sairmos um pouco e irmos dar uma volta só os dois ou almoçar fora). Foram a nossa família enquanto lá estivemos, as pessoas em quem confiávamos cegamente e que tanto nos fizeram rir quando nos apetecia chorar. 

Olhava para eles e via o amor com que trabalhavam. Dava por mim a pensar que parecia que gostavam tanto das nossas filhas quanto nós próprios, pelo carinho que demonstravam. No fundo todos os bebés que por lá passam também são um pouco deles. Ficamos com cada um no coração e adoramos ir visita-los quando vamos às consultas. Felizmente as nossas filhas nunca se vão lembrar do que viveram na neonatologia mas nós pais jamais esqueceremos e farei sempre questão de lhes contar que, apesar de terem sofrido muito, foram tratadas com muito amor.
É caso para dizer: nem todos os super heróis usam capa, alguns usam farda. Um enorme obrigada a todos os profissionais que fizeram com a nossa história na neonatologia tivesse um final feliz.


Neonatologia | O dia em que encerramos este capítulo

Sem comentários
Quando as gémeas nasceram mentalizamo-nos que o internamento seria longo, nunca ninguém fazia uma previsão do tempo mas foi-nos dito que seriam alguns meses. A partir daí preparamo-nos psicologicamente para passar muito tempo no hospital e deixamos de criar expectativas relativamente à alta delas. A ansiedade só surgia quando o peso delas começava a aproximar-se do peso com que habitualmente dão alta, os 2kg ( no caso delas tiveram alta com 1800gr). 

Na neonatologia qualquer pequena vitória delas era um motivo de festejo para nós. Fosse um pequeno aumento na quantidade de leite que toleravam, um pequeno aumento de peso, um xixi mais abundante, a diminuição do oxigénio necessário. Mas havia duas metas que traçamos durante o internamento e que eram aquelas que foram o maior motivo de festejo, a saída da incubadora/passagem para o berço e o dia da alta. A saída da incubadora fazia-nos vê-las como bebés mais normais, em que já não precisavam de estar dentro da caixinha. E a partir do momento em que saem da incubadora, geralmente, é um pequeno passo até ao dia da alta. Mas se por um lado ficamos radiantes quando elas saíram das incubadoras por outro lado ficamos também um pouco apreensivos porque fora das incubadoras estavam mais expostas a vírus e infeções e o sistema imunitário de bebés extremamente prematuros é muito frágil. 

Numa manhã cheguei à neonatologia e foi-me dito que a Carminho ia sair da incubadora. Pesava sensivelmente 1400gr. Fiquei no tal misto de felicidade vs preocupação mas a felicidade vencia. Foi o dia em que comecei a ver uma luz ao fundo do túnel. 

A Carminho ia sair da incubadora e precisava de roupa. Boa! E onde é que eu arranjo roupa para uma bebé de 1400gr e 30 e tal centímetros?! Já tinha comprado algumas roupinhas em tamanho 00 onde cabiam três Carminho’s (só para terem uma ideia era como vestir um babygrow de 6 meses a um recém-nascido). Tinha imensa roupa interior que uma mãe que também teve um bebé prematuro (e que ainda hoje não sei quem foi mas agradeço imensamente) gentilmente deixou com uma familiar do meu marido para me entregar (sim, há boas pessoas!) e esses interiores foram a minha salvação tanto com a Carlota como com a Carminho porque ficavam mesmo à medida. Uma amiga arranjou-me também bastante roupa interior mesmo pequenina oferecida por uma loja que tinha fechado recentemente. Mas precisava de arranjar roupa exterior quentinha. E lembrei-me das mãos de fada da Tia Ni que em tempo record me fez uns conjuntinhos. E incrivelmente, mesmo sem nunca ter visto a Carminho, lhe ficaram mesmo à medida. Pode parecer uma futilidade mas para quem tem bebés tão pequenos é uma dificuldade enorme. 






Após a saída da incubadora demorou cerca de três semanas até chegar o dia mais esperado. Naquela manhã tinha ido a uma consulta de oftalmologia com a Carlota ao Hospital de Santo António no Porto e ia mais tarde ao hospital ter com a Carminho. Recebo uma chamada da neonatologia de Viana. Mal atendi a voz do outro lado, uma colega de curso, diz-me: “Não te assustes! É só para te dizer que a Carminho vai ter alta! Anda com calma do Porto e traz tudo para a levares para casa!”. Comecei automaticamente a chorar e a tentar conter a felicidade mas quando dei por mim já estava em histerismo em plena sala de espera a repetir: a Carminho vai ter alta! A Carminho vai ter alta! 

Cheguei a casa, deixei a Carlota com a minha mãe, peguei nas coisas todas necessárias para trazer a Carminho para casa e voei para o hospital. Cheguei lá e encontrei as duas enfermeiras, curiosamente as duas minhas colegas de curso, tão eufórica quanto eu. Estiveram comigo durante um mês e meio e sabiam o quanto aquele momento era importante para mim. Parecíamos três crianças a vestir a Carminho e a tirar as fotografias que marcavam o dia da alta dela. Aquele era sem sombra de dúvidas um dos dias mais felizes das nossas vidas. Três meses e meio depois levávamos a nossa guerreira para casa. Era o dia em que encerrávamos o capítulo mais difícil da nossa história. Achávamos nós...

Neonatologia | O aleitamento materno e a prematuridade

1 comentário
A reação à amamentação é muito diferente de mulher para mulher. Conheço mulheres que adoraram amamentar e outras que nunca gostaram. Apesar de haver um forte incentivo à amamentação, por todos os benefícios que esta traz para o bebé, e uma forte pressão social, considero legítimo gostar ou não de amamentar, independentemente do motivo, e decidir se se quer ou não amamentar. Concordo com toda a campanha que fazem em prol do aleitamento materno, só não concordo quando falam num aumento do vínculo entre a mãe e o bebé. Não acho que seja por uma mãe amamentar que terá um vínculo maior e muito menos que ame mais o seu filho ou que seja melhor mãe do que uma mãe que não amamente.

Eu faço parte do leque de mães que não gostaram de amamentar. Nunca tive infecções, gretas, tensão mamaria, apenas não gostava. Apesar disso amamentei a Constança até aos 12 meses e só parei por indicação médica no dia em que soube que estava grávida. Durante esses 12 meses tinha imenso leite, tanto leite que conseguia amamentar e ainda conseguia extrair uma média de 750ml de leite por dia. Congelei litros e litros de leite que foi utilizado quando fui trabalhar e à posteriori quando tive que parar de amamentar. Até aos 17 meses todo o leite que a Constança bebeu foi leite materno. Isto porque apesar de eu não gostar de todo de amamentar, de ser um sacrifico fazê-lo e um sacrifício ainda maior extrair leite, sentia que era meu dever fazê-lo e propus-me a continuar já que era mais benéfico para ela. 


Quando as gêmeas nasceram decidi que o caminho seria o mesmo, amamentar até que tivesse leite. Sendo prematuras não pude amamenta-las logo desde o nascimento, contudo tive que começar logo no primeiro dia a extrair leite. Primeiro para estimular a produção de leite e depois para lhes ser administrado assim que pudessem começar a alimentar-se com o meu leite. Como na primeira gestação tive imenso leite pensei que na segunda fosse igual. Só que não! O facto das minhas filhas não mamarem não havia o mesmo estímulo para produzir. É muito diferente o estímulo dado pela sucção do bebé e por uma máquina de extrair. Se na primeira gestação conseguia tirar 250ml em 5 minutos, na segunda gestação precisava de espremer (literalmente) gota a gota durante mais de 30 minutos para tirar 50/100ml e o processo era doloroso. Como sabia da extrema importância que o meu leite tinha para as minhas filhas usei todas as estratégias possíveis e imaginárias para conseguir ter mais leite. Desde tomar medicação, a beber cervejas sem álcool, a tirar leite enquanto olhava para as fotografias das minhas filhas, a massajar e espremer, tudo o que estava ao meu alcance e me era aconselhado pelos enfermeiros era válido mas com pouco sucesso, o meu corpo não respondia como eu desejava. O factor stress e o cansaço eram antídotos potentes. 


Conseguir deixar leite para as duas bebés para 24h começou a ser quase uma obsessão para mim. Numa fase inicial era fácil atingir esse objetivo visto que elas bebiam uma média de 1ml de 6/6h. Mas à medida que foram aumentado a quantidade e a frequência foi-se tornando mais complicado. Em casa nunca consegui tirar mais de 100ml (na melhor das hipóteses) e embora as enfermeiras me dissessem que era para tirar de 3/3h eu tentava quase de meia em meia hora para conseguir o máximo de leite. Assim que chegava ao hospital e via as minhas filhas, depois de passar algum tempo com elas ia até à sala de extração de leite e tirava um ou dois biberões cheios num estalar de dedos. É incrível como o nosso corpo e a nossa mente são fantásticos.

A extração de leite num hospital também não é de todo uma experiência muito simpática. Há uma salinha pequena com três máquinas e estão três mulheres frente a frente numa mesa sem privacidade a tentar tirar leite. Para amenizar as coisas acabava também por ser a sala das partilhas e das dúvidas. Era ali que, de mamas ao léu, conversávamos e trocávamos ideias, informações e que muitas vezes nos consolávamos e dávamos apoio mútuo umas às outras. 

Quando a Carlota começou a mamar, às 4 semanas, notei imediatamente um aumento na produção de leite mas mesmo assim nada que se comparasse à quantidade de leite que tive na primeira gestação. Consegui amamenta-las com leite materno até aos quatro meses e meio, altura em que fiquei sem leite, mas não em exclusivo. A partir dos dois meses houve necessidade da Carlota começar a fazer leite adaptado (especial para prematuros) intercalado com o leite materno para que eu conseguisse tirar leite suficiente para a Carminho que naquela fase precisava mais do leite materno. Quando a Carminho teve alta começou também a fazer leite adaptado intervalando com o leite materno. Não consegui amamentar durante o tempo que desejava mas fiz tudo o que estava ao meu alcance para conseguir ir o mais longe possível. 

Neonatologia | Evolução e sequelas da prematuridade

Sem comentários
Quando as minhas filhas nasceram e as vi pela primeira vez tive uma necessidade urgente de saber como seria a evolução delas a partir dali. Precisava de ver respondidas perguntas simples: qual o ganho de peso (norma) diário? Quais as sequelas que poderão ficar para a vida? Quanto tempo em média vão ficar internadas? Qual o risco de as podermos perder? Irão ficar com um aspecto normal? (O aspecto de um bebé prematuro é muito diferente do aspecto de um bebé normal como expliquei no post “O Impacto de as ver pela primeira vez”).

Como seria de esperar os médicos não nos dão estas respostas. Em medicina as coisas não são lineares, a evolução é muito diferente de bebé para bebé e as pedras que poderiam surgir pelo caminho não podiam ser expectáveis. Daí a resposta ser sempre: cada minuto conta. É um dia de cada vez.

Na minha insatisfação face a não obter as respostas que desejava procurava exaustivamente no Google testemunhos de pais que tivessem vivido esta realidade. As palavras chave eram “prematuros de baixo peso”, “evolução de bebés prematuros”, “sequelas em bebés prematuros”, “tempo de internamento de um bebé com 400gr”,... 
As respostas eram vagas. Muitas delas vindas de meios de comunicação social que davam notícias de um bebé que sobreviveu com 400gr e esteve X tempo internado. Mas o que eu queria e precisava de ler eram relatos de pais que viveram na primeira pessoa aquela experiência. Nas paredes da neonatologia encontrávamos várias fotografias de bebés que nasceram lá, em que tinha a fotografia do bebé e o peso à nascença e ao lado uma fotografia do mesmo bebé com cerca de 12 meses e o peso nessa altura. Era terapêutico para nós ver essas fotografias porque percebíamos que a partir de uma dada altura conseguem recuperar o peso para a idade, conseguem ter feições “normais” e nem se percebe que eram bebés prematuros. Continuávamos era sem ter relatos de sequelas, de doenças crônicas.

Como já referi, a evolução de um bebé prematuro não é linear, não há uma evolução padrão mas sinto necessidade de escrever sobre a evolução das minhas filhas porque sei que tal como eu há mais pais a precisar de relatos destes. 

A Carlota nasceu com 1125gr. Na primeira semana perdeu peso e chegou aos 980gr. A partir daí o ganho de peso era de cerca de 30/40gr/dia. Só necessitou de ventilação mecânica nos dois primeiros dias de vida. A partir daí ficou apenas com oxigénio que manteve até às 7 semanas. Começou a ingerir o meu leite, 1ml de 6/6h, por sonda ao fim de dois dias e sempre tolerou muito bem, foi aumentando gradualmente. Nunca teve nenhuma infecção durante todo o internamento e ao fim de duas semanas e meia saiu dos intensivos e passou para os intermédios (apanhei um susto de morte quando cheguei à incubadora e a vi vazia! Veio a enfermeira a correr aflita explicar-me que tinha ido para os intermédios). Começou a beber leite pelo biberão e a mamar na mama ao fim de 4 semanas mas para não se cansar muito (perdem peso e baixam as saturações de oxigénio quando mamam) fazia metade por biberão ou mama e outra metade por sonda. Saiu da incubadora quando faltava uma semana para fazer dois meses. Teve sempre um progresso surpreendente e teve alta ao fim de dois meses quando já mamava perfeitamente bem por mama ou biberão e atingiu os 1750gr (é o peso mínimo com que geralmente dão alta).


A Carminho encontrou mais percalços no caminho mas dentro da sua restrição grave de crescimento também teve uma evolução muito boa. Nasceu com 475gr e na primeira semana baixou até aos 402gr. Necessitou de ventilação mecânica durante 5 dias, a partir daí ficou com ventilação não invasiva durante duas semanas e depois com oxigénio até aos três meses. O ganho de peso dela oscilava entre os 30/50gr/dia mas necessitava de um fortificante de leite materno para a fazer engordar mais rapidamente. Num dia em que não lhe dessem o fortificante o peso estagnava. Começou a ingerir leite materno por sonda ao fim de 5 dias, 0,5ml de 6/6h, e não tolerava por isso teve que parar e só reiniciar uns dias depois. O aumento foi muito lento porque não digeria o leite embora a quantidade fosse muito baixa. Só começou a beber pelo biberão com cerca de dois meses e em pouca quantidade. Fez várias transfusões de sangue por anemia, que mantém. Uma semana depois de nascer verificou-se que tinha um problema ósseo, osteopenia, que consiste em ter os ossos mais frágeis com maior risco de fractura. E no mesmo dia verificou-se que tinha também um problema no fígado, colestase metabólica. Iniciou uma série de medicação para estabilizar ambos. Ainda permanecem mas estão ambos controlados. Tem também uma doença cardíaca crônica (comunicação inter auricular) e uma doença pulmonar crônica (displasia broncopulmonar). Ambas muito bem vigiadas. Teve uma infeção gravíssima ao fim de 14 dias, uma septicemia. Passou dos intensivos para os intermédios ao fim de quase dois meses e dois dias depois foi transferida para Viana do Castelo. Saiu da incubadora ao fim de três meses e teve alta ao fim de três meses e meio com 1700gr. As ecografias cerebrais eram as que mais me assustavam mas contra todas as expectativas não ficou com qualquer sequela a nível cerebral. Tem estigmatismo e por isso usa óculos (ou eu tente que os use porque ela passa a vida a tirar).  


Apesar de tudo sou grata porque a Carlota tem apenas otite serosa, que lhe provoca em média uma otite por mês, e a Carminho apesar das suas doenças crónicas é muito bem acompanhada e estão controladas. 

Neonatologia | O dia a dia na neonatologia

1 comentário
É um clichê dizer que só quem passa por uma neonatologia é que consegue imaginar o que se sente mas não há outra forma de o dizer. 


Ter um filho na neonatologia é ansiar pela manhã seguinte para voarmos até ao hospital. É ficarmos irritados por apanharmos trânsito porque nos está a roubar tempo junto dos nossos filhos. É chegar ao hospital e percorrer os corredores ao passo mais rápido que conseguimos até chegar finalmente à porta que diz “Neonatologia”. Aí o ritmo cardíaco aumenta e tentamos ser rapidíssimos a guardar os nossos pertences no cacifo, lavar as mãos, vestir a bata, pegar nos biberões do pouco leite que conseguimos extrair em casa e percorrer a uma velocidade super sônica o corredor até à porta dos cuidados intensivos neonatais. Entrando essa porta o primeiro olhar é na direção das incubadoras dos nossos filhos. Estão lá! Ufa, que bom! Respiramos de alívio. Pousamos os biberões de leite e vamos rapidamente até às incubadoras. Examinamos ao pormenor os nossos filhos para confirmarmos a olho nu que estão “bem”. E o olhar seguinte vai para o monitor que está em cima da incubadora para ver o peso.

Ter um filho na neonatologia é vivermos  obcecados com o peso, vibrarmos com os poucos gramas que ganham diariamente e desiludirmo-nos se houver perda de peso, mesmo que sejam apenas 2 gramas. É vivermos obcecados por saber se fizeram xixis e cocos porque se torna um elemento vital para eles. É ficarmos felizes por cada gota de leite que conseguem tolerar a mais. É vivermos focados em conseguir extrair o máximo de leite possível, não importa o que tenhamos que fazer para o conseguir mas sentimo-nos na obrigação de conseguir alimenta-los apenas com o nosso leite. 

Ter um filho numa neonatologia é habituarmo-nos a vê-los com cateteres, sondas, sensores e muitos monitores à volta deles. É habituarmo-nos a ouvir os alarmes dos monitores sem ficarmos alarmados e irmos para casa com o “pi pi pi” a ecoar nos ouvidos. É sentirmos uma dor sufocante de cada vez que vemos os nossos bebés a sofrer com procedimentos médicos. É assistirmos a picadas e mais picadas. É desejarmos a todos os minutos trocar de posição com eles. É ficarmos mestres em mudar fraldas e dar banhos dentro de uma incubadora sem molhar todos os adereços (e demorar uma eternidade de tempo a fazê-lo). 

Ter um filho numa neonatologia é ansiar pelo momento de fazer o canguru. É passarmos ali 3 ou 4h a namoramos os nossos bebés. É querermos ficar ali a fazer festinhas sem pensar que teremos de os devolver às incubadoras. É cantarmos vezes sem conta a mesma musica aos seus ouvidos pequeninos. É ter a preocupação de escolher uma roupa suficientemente larga que nos permita colocá-los em canguru. É ansiar por falar com os médicos mas ao mesmo tempo estarrecer de medo das notícias daquele dia. É termos um dia estável e no dia seguinte um dia mau. É desejar que o tempo voe para os trazer para casa mas saber que os progressos são muito lentos. É desesperar a cada dia que passa por demorar a chegar o dia de dizer adeus à neonatologia. E quando esse dia chega é chorar de nostalgia por deixarmos aquela família que construímos.

Ter um filho numa neonatologia é formar uma nova família, a família da neonatologia, com quem (apesar de todas as circunstâncias) fomos muito felizes. É ver nos profissionais de saúde e nos outros pais os nossos maiores aliados. São eles que nos percebem melhor do que ninguém. É com eles que passamos a maior parte dos nossos dias. É com eles que passamos a almoçar e lanchar. É com eles que desabafamos. Que celebramos as boas notícias e choramos quando recebemos as más. É vibrar também com os progressos dos filhos deles e ficarmos sinceramente tristes quando pioram. 

Ter um filho numa neonatologia é regressar a casa de colo e barriga vazios. É regressar a casa com o coração apertado e de lágrimas nos olhos porque sentimos que os estamos a abandonar no hospital. É regressar a casa todos os dias com medo do que possa acontecer na nossa ausência. É congelar sempre que o telefone toca. É aprender a viver com medo. 

Ter um filho numa neonatologia é sentirmo-nos culpados e que poderíamos ter evitado aquela situação. É viver a pensar nos “Se’s”. É devorarmos vezes sem conta toda a informação distribuída pelo serviço. É aprendermos a viver um minuto de cada vez. É aprendermos a desvalorizar completamente problemas fúteis. É termos a lágrima fácil. É chorar de alegria e de tristeza. É celebrarmos pequenas conquistas como grandes feitos.

Neonatologia | Nem todos os finais são felizes

1 comentário
Infelizmente nem todos os finais são felizes na neonatologia. Ao longo dos três meses e meio em que estive lá não presenciamos só casos de sucesso, presenciamos também perdas. Foram três os bebés de quem nos despedimos. Perdas essas irreparáveis para os pais mas também muito sentidas pelos outros pais. 

O primeiro bebé que “vimos” partir foi o primeiro vizinho da Carminho e foi precisamente dois dias depois das nossas filhas nascerem. Os pais, muito simpáticos, tinham tentado consolar-me no dia anterior, quando vi as gémeas pela primeira vez e estava arrasada, e disseram-me que o filho já estava lá há um mês. Era um bebé bem grande em relação às minhas e não sei em concreto o que aconteceu. Sei que naquela manhã os médicos estavam reunidos à volta dele e a dada altura pediram a todos os pais que saíssem (já referi anteriormente que tínhamos que sair sempre que fossem fazer algum procedimento mais delicado). Como eu ainda estava internada subi até ao quarto. Mais tarde quando regressei o bebé não estava lá. Deduzi o que poderia ter acontecido mas não podíamos perguntar nada acerca dos outros bebés por uma questão de sigilo e por isso só mais tarde tive a confirmação através de outra mãe que estava lá quando os pais receberam a notícia. Confesso que aquilo me abalou muito. Por pensar nos pais que estiveram um mês com o filho e ao fim desse tempo a aumentarem um vínculo afetivo ficaram sem ele. Caramba! Como é que se lida com isto? Como é que se ultrapassa uma dor destas? E por perceber que um mês depois isso ainda podia acontecer, nunca estavam fora de perigo. 


O segundo bebé que “perdemos” tinha nascido no mesmo dia das nossas filhas. Partiu 10 dias depois de nascer. Naquele dia achamos estranho não termos visto lá os pais, estávamos diariamente com eles. Quando fui extrair leite outra mãe perguntou-me se eu sabia o que tinha acontecido porque de manhã cedo viu os pais lá a chorarem e o bebé já não estava lá. Não fazia a mínima ideia mas tudo apontava para o pior. E confirmamos mais tarde. Fiquei incrédula. Nem queria acreditar. Senti essa perda de uma forma muito intensa. Tinha nascido no mesmo dia das gêmeas e na minha cabeça ao fim daquele tempo já nada lhes ia acontecer mas ao ver o que aconteceu ao bebé percebi que afinal ainda tudo podia acontecer. Como convivíamos com os pais senti muito a dor deles, verdadeiramente. Pode parecer ridículo mas era como se aquela perda também fosse um pouco nossa. Andei com um nó na garganta vários dias, mesmo sentida pelo que aconteceu.


A terceira perda foi uma menina. Uma bebé de termo que depois de nascer estava no internamento com a mãe. Na primeira noite a mãe apercebeu-se de que havia algo de errado com a respiração dela e alertou as enfermeiras. No dia seguinte desceu para a neonatologia. Estava na incubadora atrás da Carminho. Não me recordo quantos dias ao certo esteve lá mas durante esse tempo a mãe dizia-me que lhe faziam imensos exames e que ainda não sabiam ao certo o diagnóstico. Poucos dias depois cruzei-me com os pais à saída do elevador, eles a sair e eu a chegar, completamente desolados. Não houve tempo para perguntar nada mas quando entrei na neonatologia e vi a incubadora vazia percebi o que tinha acontecido.


Era estranho porque os pais (evidentemente) desapareciam, a incubadora era logo substituída por outra pronta a receber outro bebé e entre profissionais não se ouvia falar mais do assunto, dando a sensação de que nada tinha acontecido. Mas entre os pais não era bem assim. O medo e as dúvidas aumentavam e toda a segurança que pudesse ter era abalada naqueles dias. 


Durante o tempo que passamos na neonatologia os outros pais são as pessoas com quem passamos mais tempo, são os que estão lá quando recebemos boas e más notícias e é com eles que desabafamos numa primeira fase. É com eles que almoçamos, que lanchamos à pressa na sala dos pais. Criam-se laços, uma ligação especial entre todos. Estamos todos no mesmo barco, a viver exactamente a mesma experiência e ninguém percebe melhor o que estamos a sentir do que eles. É o clichê “só quem passa pela neonatologia sabe o que se sente”. Torcemos pelos outros bebés como torcemos pelos nossos. Interessámo-nos verdadeiramente por todos, pelas conquistas diárias. E inevitavelmente sofremos a dor dos outros assim como vibramos com as alegrias.


Neonatologia | Septicemia: o dia em que pensei que não voltaria a ver a Carminho com vida

Sem comentários
Só houve quatro dias na curta vida da Carminho em que eu achei que poderia não a voltar a ver com vida. O primeiro foi no dia do parto, como já referi no post em que falo do parto, em que achei realmente que seria muito difícil uma bebé de tão baixo peso com 29 semanas sobreviver. O segundo foi no dia 14 de Agosto, 13 dias depois dela nascer, o terceiro e quarto foram nos dias 15 e 16 de Dezembro (falarei sobre isso noutro post mais tarde).

Depois de ver as minhas filhas na neonatologia, apesar do medo permanente que houvesse uma reviravolta e dos médicos e enfermeiros estarem constantemente a alertar que o estado delas ainda era muito crítico e que era minuto a minuto, eu senti sinceramente que elas iam vencer. Custava-me a acreditar que depois de sobreviverem ao primeiro dia pudessem não viver (odeio a palavra morrer!). Sabíamos que isso podia acontecer, era-nos dito sempre que a qualquer momento poderia haver complicações mas eu não acreditava. Estar com elas, vê-las, tocar nelas e ver os dias a passar e elas a não darem parte fraca dava-me mesmo coragem e percebia que elas nasceram para vencer. Às vezes até me sentia mal porque achava que com tanto optimismo não estava a atribuir a real gravidade do estado delas mas sentia mesmo que ia correr tudo bem. 

No dia 14 de Agosto elas tinham 13 dias de vida e, tal como em todos os outros dias, chegamos ao hospital e percorremos os corredores até à neonatologia a uma velocidade super sônica. Eu entrei primeiro na unidade de cuidados intensivos enquanto o pai ficou a lavar as mãos. Olhei para a incubadora da Carlota (era a primeira no corredor) e depois para a da Carminho. Quando olhei para a Carminho fiquei sem chão. Estava novamente com o ventilador, que tinha retirado uns dias antes e tinha sido uma grande conquista; parecia ter o triplo do peso de tão edemaciada (inchada) que estava; muito pálida e completamente prostrada (não reagia a nada, nem se mexia e ela era muito mexida). Percebi que alguma coisa tinha mudado e que o estado dela tinha agravado bastante desde o dia anterior.  Mesmo antes de falar com o médico e a enfermeira comecei a chorar. O pai chegou e perguntou-me o que se passava. Expliquei-lhe o que pensava. Logo a seguir veio a enfermeira e disse exactamente estas palavras que até hoje não esqueço: -Tudo bem papás? A Carminho não está nada bem. Fez febre, várias bradicardias severas e bradipneia desde o início da manhã até agora. Já iniciou antibiótico porque suspeitamos de septicemia e enquanto aguardamos o resultado temos que actuar com o antibiótico para lutar contra o tempo.




Septicemia?! Naquele momento todo o meu optimismo e esperança foram por água abaixo. A septicemia é altamente fatal. É uma infeção em que os agentes infecciosos penetram na corrente sanguínea e são assim transportados a vários locais do corpo,  uma infeção generalizada. Sabia que era gravíssimo. Como é que uma bebé de 400 e poucos gramas ia conseguir vencer uma septicemia? 

Já ouvi relatos de pais que dizem que lhes foi pedido para não chorar junto às incubadoras porque os bebés sentem tudo. A nós nunca nos foi dito isso. Acho que os enfermeiros da neonatologia já estão habituados a verem os pais chorarem junto das incubadoras. Eu própria já tinha chorado muito. Mesmo assim sentia-me a sufocar ali e saí para o corredor. Chorei tudo o que tinha para chorar durante um longo tempo. Tive os olhares, sorrisos e abraços de solidariedade de outros pais e quando já não tinha mais nada para chorar entrei e colei-me à incubadora da Carminho. Cantei-lhe vezes sem conta a música da Carolina Deslandes “A vida toda”. As minhas filhas ouviram essa música centenas de vezes por dia enquanto estiveram na neonatologia, é a música delas. Ainda hoje choro quando a ouço e elas acalmam quando a ouvem. Naquele dia a letra foi alterada por mim para aquilo que eu lhe queria dizer e pedir naquele momento. Não sabia se ela percebia mas queria que soubesse que precisávamos que ela vencesse a maldita septicemia. Que era muito amada e querida para nós. Tinha que vencer. Não conseguíamos imaginar o que seria de nós se assim não fosse. 

Elas estiveram muitas vezes na corda bamba durante a gravidez mas há uma diferença enorme entre haver esse risco enquanto estão na barriga e vê-las a sofrer cá fora. Assim como perdê-las enquanto estão na barriga e perdê-las quando já há um rosto, um cheiro, toque. É um vínculo muito mais intenso. Não desvalorizando nunca uma perda de um filho enquanto está na barriga. Passei por semanas de verdadeiro horror com esse medo e sei bem o quanto custa só pelo medo.

Enquanto estivemos lá não me lembro de ver a Carminho a mexer-se minimamente. Saímos do hospital ao início da noite e a enfermeira disse para ligarmos sempre que quiséssemos para saber como ela estava mas que era realmente grave. Sinceramente deixei o hospital com a sensação de que não a voltaria a ver com vida. Ela estava mesmo debilitada. Estava aterrorizada. 

Mais uma vez fizemos a viagem até casa sem falar. Tinha um nó gigante na garganta (quase como o que tenho agora ao relembrar aquele dia). Cada vez que um dos nossos telemóveis tocava era o pânico. Podia ser a notícia que não queríamos ouvir. Liguei de duas em duas horas para o hospital. Continuava com o mesmo estado. Bradicardias, prostração, bradipneia.


No dia seguinte manteve o mesmo estado e quando veio o resultado das análises confirmou-se que era septicemia e que estava bem medicada. O nosso medo mantinha-se. Dois dias depois começou a melhorar significativamente. A nossa guerreira estava a ultrapassar mais esta batalha. A força dela era uma coisa impressionante. Nem meio quilo de gente e uma vontade de viver desmedida.

Neonatologia | O primeiro canguru

Sem comentários
Íamos todos os dias ao hospital e como não podíamos pegar nas nossas filhas ficávamos de pé a olhar para elas e púnhamos as mãos pelas janelas das incubadoras para acaricia-las ou, caso estivessem a dormir, colocávamos apenas as mãos em contacto com a pele delas e ficávamos estáticos para não as acordarmos. Eu ficava com uma e o pai com outra e passado um tempo trocávamos. Passávamos o tempo todo assim. Mas o que ansiávamos mesmo era o dia de lhes podermos dar colo. Termos ali as nossas bebés e não lhes podermos dar colo era uma espécie de tortura. 

Em neonatologia não se usa o termo colo, chama-se fazer canguru. Este método consiste em colocar o bebé pele com pele com os pais. Os bebés estão na incubadora apenas com a fralda e são colocados encostados ao peito do pai ou da mãe por dentro da roupa sempre por um tempo superior a 1h. E traz imensos benefícios tanto para bebé como para a mãe. Segundo a Sociedade Portuguesa de Neonatologia no caso do bebé: melhora a regulação da temperatura corporal cutânea e central através do mecanismo de condução da temperatura do adulto; diminui a variação da frequência cardíaca e respiratória, melhora a oxigenação, reduz as bradicardias; promove a regulação do sono-vigília; melhora o crescimento e o desenvolvimento. No caso da mãe: promove a vinculação; aumenta a produção de leite; melhora o bem estar emocional e psicológico; incentiva a relação entre os pais/bebé.

Uma semana depois do parto quando chegamos à beira das incubadoras a enfermeira perguntou se queríamos fazer canguru com a Carlota. -E já podemos? Queríamos muito tê-la junto a nós mas a nossa prioridade era o bem estar dela e queríamos muito protegê-la. Se tivéssemos que esperar mais algum tempo para segurança dela esperaríamos. Mas a enfermeira disse que a Carlota já podia sair da incubadora e íamos finalmente poder fazer canguru com ela. Quase explodimos de alegria. Íamos finalmente poder sentir a nossa filha no nosso peito pela primeira vez. 

Tirar um bebé da incubadora é uma espécie de malabarismo. Eu sentei-me no cadeirão conforme indicação da enfermeira e depois foi assistir a toda uma logística de mudar a fralda, desligar sensores, desfazer o tricot todo dos fios que ela tinha conectados, vira daqui e vira dali. Quase dez minutos depois estava a enfermeira a trazê-la e a colocá-la no meu peito. Uma pluma, tão leve e frágil. O que senti nesse momento é algo indiscritível. Se numa situação normal, como tinha acontecido no dia do nascimento da Constança, é a melhor sensação do mundo, neste caso estando privados disso durante 8 dias é mesmo um momento muito marcante. 



A primeira coisa que fiz foi cheira-la. O cheirinho dos bebés é o melhor cheiro do mundo e era um desgosto que eu tinha, estar privada desse contacto e tinha receio que quando as pegasse pela primeira vez elas já não tivessem esse cheirinho tão característico. Então durante as 2h que se seguiram colava o nariz à cabecinha dela e cheirava-a intensamente, queria ficar com aquele cheirinho entranhado. Estivemos ali as duas, eu deitada confortavelmente no cadeirão com ela a dormir profundamente e a mima-la. Passado esse tempo era a vez do pai fazer canguru e de eu me colar à incubadora da Carminho. A partir desse dia pudemos fazê-lo diariamente. Dar colo a uma e não dar a outra dava-nos a sensação de injustiça. Uma estava a usufruir de um privilégio que a outra não podia. Mas havia de chegar o dia da Carminho. 

Só vinte dias depois do parto é que a Carminho pode sair da incubadora. Chegamos à neonatologia e eu fui marcar os biberões de leite que extraía em casa, quando cheguei à beira das incubadoras já estava o pai com a Carminho em canguru. A nossa pequenina podia finalmente ter colinho como a mana. Mas se ter a Carlota em canguru nos assustou no primeiro dia, com a Carminho ainda nos assustava mais. Ela era tão mas tão pequenina e tão frágil que dava a sensação que se ia partir. Eu nem sabia pegar numa bebé tão pequenina. Quando a enfermeira a pôs no meu peito mal conseguia senti-la de tão leve que era. Se eu achava a Carlota uma pluma a Carminho então nem se via dentro da minha blusa. 



Era o ponto alto dos nossos dias, poder sentir as nossas filhas no nosso peito, sentir o cheirinho delas, ouvir os sons delas tão particulares nos recém nascidos. E sentia-me triste por não poder viver isso tudo em casa 24h por dia. Então absorvíamos tudo daqueles momentos para levarmos na lembrança para casa para o tempo que passávamos longe delas. Eram as melhores 3/4h do nosso dia e nesse período de tempo era quando mais sentíamos que tudo ia correr bem, já não podia ser de outra forma. 


Ao contrário do que eu pensava inicialmente,  com o avançar dos dias a dificuldade de as deixar era cada vez maior e custava-nos cada vez mais. O vínculo afectivo aumentava a cada dia e o amor que sentíamos por elas também. E cada dia era mais penoso do que o anterior. Estávamos perfeitamente conscientes de que o internamento delas seria longo mas estava a ser cada vez mais difícil regressar a casa sem elas. Sentia mesmo que estava a perder os primeiros meses das minhas filhas, aquela fase de recém-nascidos onde parece que o corpinho delas é todo maleável e se funde no nosso, e isso é algo irrecuperável.

Neonatologia | O dia da minha alta

2 comentários
Quando as coisas correm conforme o expectável o dia da alta é o mais ansiado pelos pais. Queremos muito levar as nossas bebés para casa e começar a viver aquela nova fase, com todas as coisas boas e menos boas, no nosso lar. Quando temos que voltar para casa de mãos a abanar as coisas são muito diferentes e gera em nós um sentimento agridoce.

Sabia que aquele dia ia chegar e que iria ter que voltar para casa sem elas. Se até ao parto me custava muito estar internada, depois do parto as coisas eram diferentes. Não que gostasse de estar internada, queria muito voltar para casa, mas enquanto estava ali podia descer à neonatologia sempre que quisesse, ficar ali o tempo que desejasse e acabava por me sentir perto das minhas filhas. Pelo menos mais perto do que a mais de 70km de casa. 

O hospital dispunha de uma casa onde as mães que vivessem a mais de 30km (espero não estar a cometer um erro em relação aos quilómetros) podiam ficar gratuitamente. Tinham que sair da casa até às 9h e só podiam voltar a entrar depois das 22h, hora a que tínhamos que sair da neonatologia. Era uma mais valia para quem vivesse longe mas os horários, na minha opinião, precisavam de ser revistos. São muitas horas sem ter onde descansar um pouco porque naquele intervalo de tempo não podiam ir para lá. Independentemente disso a minha decisão era ir para casa e regressar ao hospital todos os dias. Estávamos no mês de Agosto e a Constança estava de férias da creche. Queria estar com ela todos os dias e aproveitar com ela o tempo que não estivesse no hospital. Ela tinha apenas 16 meses e meio e precisava muito de mim e eu dela, era a minha força, e já não a via há cinco dias (o que para mim era imenso tempo). 

Então, três dias depois do parto, tive alta. Fiz as malas e desci para a neonatologia enquanto o meu marido levou todos os meus pertences para o carro. Ficamos o dia todo lá com as meninas, a saltitar de incubadora em incubadora. Quando se tem duas filhas na neonatologia sentimo-nos um pouco baratas tontas porque queremos dividir o tempo pelas duas quase de forma igual e então não paramos quietos, sempre a andar de uma incubadora para a outra e a olhar para dentro daquela caixinha como se estivéssemos a apreciar uma valiosa obra de arte. E estávamos! Cada movimento delas era a coisa mais bonita do mundo. 




Quando faltavam umas duas horas para irmos embora comecei a sentir um vazio gigantesco. A sensação de ir para casa e deixar as minhas filhas a mais de 70km de casa era horrível. Se acontecesse alguma coisa eu estava tão longe delas. Não podia chegar ao hospital rapidamente nem estava lá para as ver. Afirmo com toda a certeza que esse foi o segundo dia mais triste da minha vida, sendo que o primeiro foi o dia do parto. Por muito que eu possa escrever e descrever não há palavras que façam justiça ao que uma mãe sente nesse dia. Deixá-las ali “sozinhas” gera em nós um sentimento de tristeza profunda, com a sensação de que as estamos a abandonar, de que estamos tão longe e não estamos lá para as proteger (como se os profissionais que lá trabalham não estivessem mais capacitados do que nós para as protegerem!). 

Todos os pais que estavam lá há mais tempo sabiam exactamente quando uma mãe tinha alta, era o dia em que a mãe mais chorava junto às incubadoras. A própria enfermeira quando viu o meu estado disse-me: a mamã teve alta hoje não foi? 

Quando chega a hora de ir definitivamente embora aquela tristeza atinge proporções desmedidas. É só mais um toque, é só mais um olhar, é mexer no lençol para as aconchegar mais, é ver se estão confortáveis. No fundo é arranjar uma série de desculpas para ficar mais um pouco e não ter que lhes virar as costas. Até que tínhamos mesmo que ir embora. Percorri os corredores do hospital e o trajecto até ao carro a chorar compulsivamente. A dada altura dei por mim a pensar que era um exagero aquele sentimento porque as minhas filhas estavam em excelentes mãos e estavam a lutar mas como é que se controla isso? 

A viagem até casa demorou mais de uma hora e durante essa hora não trocamos uma palavra. Eu tinha um nó tão grande na garganta que só queria estar sossegada nos meus pensamentos. A cada quilómetro que nos afastávamos do hospital a minha dor aumentava e chorava ainda mais. Pensei muitas vezes, não só naquele dia como nos dias que se seguiram, que não ia aguentar aquela dor, que não sabia durante quanto tempo ia aguentar aquela situação. 

Quando cheguei a casa recebi a visita de uns tios e pedi ao meu marido para lhes pedir desculpa mas não queria estar nem ver ninguém. Só queria estar em sossego, nós os três. Dei por mim em casa vezes e vezes sem conta, durante as semanas que se seguiram ao parto, a acariciar instintivamente a minha barriga como se elas ainda estivessem ali. O meu cérebro ainda não tinha assimilado que o facto delas não estarem no meu colo não significava que ainda estivessem na minha barriga. E quando me apercebia do que estava a fazer chorava e chorava e dizia: já não estão aqui! Mas eu queria muito que ainda estivessem e custava-me horrores pensar que aquela gravidez tinha sido tão fugaz, que não tivesse tido tempo para as ter mais tempo só para mim, que me tinham sido “roubadas” tão cedo, que estavam a sofrer tanto e que estavam a passar por uma verdadeira prova de fogo. Pode parecer tudo muito exagerado mas era assim que os meus sentimentos estavam naquele momento. Continuo a dizer que ninguém está preparado para ver um filho  naquela situação e só quem passa por isso entende o que sente. Até porque aliado a isto tudo existia o sentimento de culpa e os “S’s” todos. Se tivesse repousado mais, se não tivesse ficado tão nervosa por ter sido internada, se não tivesse não desejado ter gémeos e mais alguns “S’s” que naquele momento me faziam sentido. 


Tornei-me monótona nas conversas com as poucas pessoas com quem me propunha a conversar e não esqueço a paciência que tiveram para ouvir os meus desabafos repetitivos e me tentarem levantar e dar força. É um clichê dizer que nos maus momentos é que se vêem quem são os verdadeiros amigos mas é verdade. Não que precisasse desta prova de fogo para saber quem tenho ao meu lado mas confirmei que são os melhores que poderia ter. Porque mesmo distantes fisicamente estiveram sempre comigo. 

Neonatologia | O impacto de as ver assim

2 comentários
No dia a seguir ao parto a obstetra passou visita por volta das 9h30 e após ter verificado que estava tudo bem comigo, pelo menos a nível físico, deu-me autorização para ir à neonatologia ver as minhas filhas. O meu marido não estava no hospital, teve que ir tratar das burocracias todas após o nascimento, e fui acompanhada pela auxiliar que me levou numa cadeira de rodas apesar de me sentir perfeitamente confortável para ir a pé.

Quando cheguei à entrada da neonatologia vi uma banca com um lavatório do lado direito e do lado esquerdo tinha uma porta aberta para um corredor pequeno  onde estavam os cacifos, ao fundo do corredor tinha um WC para os pais. O corredor era tão estreito que não passavam duas pessoas em simultâneo. A auxiliar deixou-me à entrada a aguardar uma enfermeira e enquanto eu esperava estavam  duas mães a lavar as mãos no lavatório e conversavam. Inevitavelmente ouvi a conversa. Uma delas dizia à outra que na tarde do dia anterior estiveram muito tempo na sala dos pais, não puderam entrar na unidade de cuidados intensivos, porque entraram duas gêmeas “muito complicadas” e estiveram a estabiliza-las. As gêmeas eram minhas! Ao ouvir aquilo e com a fragilidade emocional em que estava começaram a cair-me as lágrimas. Passado pouco tempo olharam as duas para mim e perceberam que as gêmeas eram minhas. Sorriram-me com um olhar cúmplice como se me quisessem  dizer: muita força. Com o passar do tempo fui percebendo que os pais comunicavam muitas vezes assim entre si, quando as palavras nos faltavam limitávamo-nos a sorrir num acto de dar força. E funcionava tão bem!

A enfermeira chegou e foi-me explicando toda a dinâmica do serviço. Tínhamos um cacifo com o número das incubadoras das nossas filhas  onde podíamos deixar as nossas coisas todas. Nesses cacifos estavam diariamente duas batas, uma para o pai e uma para a mãe, e essas batas eram substituídas todos os dias à noite. Não podíamos entrar com pulseiras, anéis, relógios, colares e brincos porque eram veículos de transporte de bicharada. Tínhamos que lavar as mãos com toda a técnica descrita passo a passo no folheto afixado atrás do lavatório, para mim não era novidade porque o faço na minha actividade profissional mas para muitos pais (inclusive o meu marido) era uma novidade e perdiam ali bastante tempo nos primeiros dias a seguir todos os passos. Após a lavagem das mãos e estar devidamente equipada segui pelo corredor a pé com a enfermeira.

O corredor era comprido, muito largo e muito luminoso. Ao início do corredor ficava a sala dos pais, do lado direito. Uma sala com sofás e televisão onde podíamos sair para lanchar ou simplesmente para conversar um pouco ou até chorar como aconteceu muitas vezes. Também era para lá que íamos quando tínhamos que sair da unidade. Sempre que entravam bebés ou que tinham que fazer algum procedimento mais delicado pediam aos pais todos que saíssem. Acontecia muitas vezes e por longos períodos. A porta seguinte era a sala onde extraímos o leite. Tinha todo o material necessário e só podiam estar três mães de cada vez. Era uma sala pequena e tinha apenas três máquinas. Logo a seguir a essa sala estavam as unidades de cuidados intensivos do lado esquerdo e de intermédios do lado direito. Ambas todas vidradas tanto para o corredor como para o exterior. Eram muito luminosas e amplas. E lá estavam incubadoras e mais incubadoras. Entramos na unidade de cuidados intensivos e após passar a primeira porta tinha mais um lavatório onde teríamos que lavar e desinfectar novamente as mãos e só depois passar a segunda porta. 

Encaminhou-me até às incubadoras das minhas filhas que estavam lado a lado, a 10 e a 11, separadas apenas por um cadeirão para os pais. E se até ali havia momentos em que eu ainda pensava que não passava tudo de um pesadelo, ali confrontei-me com a realidade. E, como todas as mães quando vêem pela primeira vez os filhos numa incubadora, chorei. Queria controlar-me e não consegui parar de chorar um único segundo enquanto estive com elas. É muito difícil explicar o que se sente e o que se vê. No meu curso, no estágio de pediatria no Hospital de São Marcos, tive dois dias de observação na neonatologia e nada daquilo era novidade para mim. A diferença é que ali estavam mesmo as minhas filhas! As minhas filhas estavam completamente escondidas entre sensores, sondas, cateteres, ventilador. Eu via fios e mais fios. Os cateteres eram maiores do que os membros onde estavam. O saco em que estava envolvida a alimentação parentérica era maior do que elas.

E elas.. Uma coisa era ver em fotografias, outra totalmente diferente é ver ao vivo. O que mais me chocou é que conseguia contar-lhes todas as vértebras de tão magras que eram e de tão fina e translúcida que era a pele. A magreza delas era mesmo assustadora. Tinham uma pele muito escura, ainda coberta de lanugo (o corpo todo coberto com pelo preto), imenso cabelo preto, pés e mãos enormes em relação ao resto do corpo e uma cabeça completamente desproporcional de tão grande que era. Não eram efectivamente bebés bonitas mas eram as minhas bebés e para mim podiam ser as bebés mais lindas ou mais feias do mundo, isso era supérfluo e pouco me importava, o que eu queria mesmo é que elas não desistissem de viver. 




A enfermeira foi-me explicando tudo o que tinha sido feito desde que elas nasceram. Os exames que iam fazer e o estado delas. Habituámo-nos a ouvir diariamente que estão estáveis mas não estão fora de perigo, que cada segundo conta. Pude tocar-lhes e ficar ali a acariciá-las enquanto chorava, uma de cada vez e desinfectando as mãos sempre que ia tocar na outra, e foi a melhor sensação do mundo. A Carminho era pouco maior do que a minha mão, era do tamanho da mão do pai. Foi, durante todo o tempo que esteve lá, a bebé mais pequenina do serviço. A Carlota tinha mais 8cm.

Os pais do bebé que estava na incubadora ao lado da Carminho meteram conversa comigo para me consolarem e darem algum apoio e força. Já estavam lá há um mês. Confesso que naquele momento nada me consolava. Achava tão injusto bebés inocentes e tão pequenos estarem a sofrer daquela maneira que só sentia revolta.

Como a minha cesariana era recente a enfermeira disse-me para ir descansar mas eu não queria sair dali. Ao lado delas sentia que as protegia e que nada lhes podia acontecer mas a verdade é que ao fim da manhã comecei a sentir imenso sono (por causa do anti-histamínico) e tive mesmo que subir para o meu quarto.  

À tarde voltei para a neonatologia com o meu marido. Mas como ele não ia passar lá a noite porque tinha que cuidar da Constança eu à noite fiquei sozinha e estive na neonatologia até às 22h, hora em que tínhamos que sair. E quando saí, não sei explicar porquê, foi quando me deu o verdadeiro ataque de choro. Sentia que ia sufocar por deixá-las ali e ir sozinha para o meu quarto. Em vez de subir logo para o quarto fiquei à entrada do elevador a ver fotografias dos bebés que tinham nascido ali. Precisava de me agarrar a casos de esperança e precisava de ler relatos de casos idênticos ao nosso para acreditar que tudo ia correr bem. Fiquei ali sensivelmente 1h a ver e rever fotografia a fotografia, na sua maioria gémeos. E chorava como se não houvesse amanhã. Quando subi para o internamento continuei e não sabia como ia conseguir acalmar-me. Sentia um aperto enorme no peito. Uma dor que não conseguia explicar. E quando ouvia os bebés dos quartos vizinhos a chorar então essa dor triplicava. Ninguém está preparado para ver um filho a sofrer dessa forma. É de uma agressividade emocional que não dá para descrever. 

A enfermeira veio dar-me medicação e ficou ali comigo um bom tempo, só a ouvir desabafos sem sentido. Sabia que só estava a dizer frases soltas sem muito nexo mas naquele momento era o que estava a sentir. E mesmo depois da enfermeira ir embora ainda voltou ao quarto umas tantas vezes para ver se eu estava bem. Só quando o anti-histamínico surtiu efeito é que consegui finalmente adormecer.