A minha Constança

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Era uma vez uma princesa, a primeira princesa dos papás. 

Sou a Constança, uma menina muito planeada e muito desejada. A mamã viveu uma gravidez muito feliz, sem nenhum desconforto nem complicações. O único susto que dei aos meus papás foi às 7 semanas, a minha mamã teve uma dor muito forte e no hospital suspeitaram de gravidez ectópica. Queriam que a mamã abortasse mas ela pediu muito que reavaliassem novamente e dois dias depois lá confirmaram que afinal estava tudo bem. A partir daí correu tudo lindamente. Tão lindamente que às 10 semanas fiz uma viagem na barriga da mamã de quase 20h de voo e portei-me muito bem.


A mamã adorava ter-me na barriga, era uma grávida muito orgulhosa e vaidosa. Trabalhou comigo na barriga até às 36 semanas mas depois eu castiguei-a para ela parar, deixei de engordar e a médica mandou-nos fazer repouso absoluto. É muito bem feita, eu já estava cansada da vida agitada que ela levava! Onde é que já se viu acordar-me às 7h e trabalhar 11h seguidas? Não parava quieta.

Os meus papás estavam ansiosos por me conhecer mas eu fiz-me de difícil. Só nasci às 41 semanas de parto induzido. A mamã diz a toda a gente que foi um parto muito fácil, que não sofreu nada. Os meus papás choraram muito de emoção quando me viram. 

Não fui uma bebé fácil mas os meus papás eram resistentes. Acordava de hora em hora para mamar e a partir do primeiro mês de vida fiquei uma chorona. Ou a mamã me dava colo ou chorava o dia todo e dormir só mesmo à noite. Mesmo assim a mamã gostava muito de mim, tanto que decidiu que afinal eu já não ia ser filha única como tinham planeado. 

Quando eu tinha 16 meses nasceram as minhas manas e os meus papás passaram por um período muito difícil. Tinham as manas no hospital e eu em casa. A mamã sentia-se muito culpada por não poder estar mais tempo comigo e por me ter roubado a atenção exclusiva. Eu ainda era muito bebé, precisava muito dos meus papás e tive que crescer mais rápido do que o previsto. Isso deixava a mamã triste. Mas eu aprendi rapidamente a gostar das minhas manas e a ajudar a mamã a cuidar delas. Mesmo pequenina sabia partilhar a atenção e não tive muitos ciúmes. E gosto muito das minhas manas. Às vezes também me zango com elas mas dizem que os irmãos são mesmo assim. 

Sempre fui uma menina de birras, birras daquelas de deixar os papás de cabelos em pé. Agora estou a melhorar muito mas de vez em quando ainda faço uma. A mamã costuma dizer que eu tenho tanto de doce como de birrenta. Que sou muito meiguinha mas que quando estou num dia “não” lhe apetece fugir. Oh mamã dizem que estou na adolescência do bebé por isso é normal! Mas sou uma menina fui feliz, muito atenta a tudo, muito espontânea e inteligente. Falo pelos cotovelos.





Hoje faço 3 anos e estou muito feliz! Acordei a cantar os parabéns a mim própria, eu adoro fazer anos. A mamã fica um bocadinho triste porque diz que estou a crescer rápido demais! Habitua-te mamã que não tarda nada eu e as manas estamos a entrar na escola primária (isto para não dizer que estamos a sair à noite!).

Neonatologia | A revolta contra Deus

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Durante a gravidez, mediante as complicações que foram surgindo, foram muitas as vezes em que rezei. Morria de medo que algo pudesse correr mal e rezava imenso numa tentativa desesperada de pedir auxílio. Nunca tinha tido necessidade de rezar para pedir ajuda, apenas o fazia por gosto mas nessa fase tive mesmo essa necessidade.

Sou católica praticante, catequista há 20 anos, e sempre me agarrei à fé. Depois das gémeas nascerem todas as pessoas que me enviavam mensagens ou telefonavam para saber notícias das meninas se despediam com algo do género: tens que ter fé; muita fé; tem fé que vai correr tudo bem; Deus é grande. Não respondia para não parecer ingrata. Só que aconteceu precisamente o oposto. Perdi a fé por completo. Revoltei-me completamente contra Deus. Questionei muita coisa. Não conseguia aceitar que O Deus em quem eu sempre confiei e que sempre servi tivesse a castigar as minhas filhas daquela forma. Não conseguia perceber o porquê de dois seres tão inofensivos que nunca fizeram mal a ninguém tivessem que estar a sofrer daquela forma. Não fazia sentido. A minha cabeça só pensava que se Deus realmente existisse não podia permitir que dois bebés tivessem que passar por aquilo. Se nos quisesse pôr à prova ou dar uma lição de vida então que o sofrimento físico fosse atribuído a nós e não a quem não merecia. E mesmo que nos estivesse a castigar a nós não conseguia perceber o porquê. 

Ao longo de todo o internamento todos os meus familiares e alguns amigos fizeram inúmeras promessas e rezaram muito em prol da recuperação das meninas e não há um “obrigada” que seja suficientemente justo para lhes agradecer. Enquanto isso eu não consegui fazer nenhuma promessa, nem rezar uma única vez tal era a minha revolta. Se Ele tinha permitido que elas estivessem naquela situação tinha obrigação de as ajudar sem eu ter que pedir. Estava mesmo zangada com Deus. Via as minhas filhas a sofrerem diariamente e a lutarem sozinhas com quantas forças tinham para sobreviver, a única ajuda que tinham era dos médicos e enfermeiros que lutaram sempre com elas. Ao longo deste percurso ainda perdi uma amiga muito querida , a melhor pessoa que já conheci, após uma longa jornada de luta. Dedicou-se a vida toda à Igreja. E mais acentuou a minha revolta. Se Deus existisse porquê que a tinha feito carregar uma cruz tão pesada para depois a levar? 

Diversas vezes me pesou a consciência por não conseguir rezar pelas minhas filhas e várias foram as vezes em que tentei fazê-lo mas quando começava sentia falsidade da minha parte porque não estava a fazê-lo com fé e convicção, estava apenas a fazê-lo porque achava mal não rezar por elas e então desistia. Preferia falar-lhes ou cantar-lhes numa demonstração de amor. Afinal é o amor que cura tudo, não é? 

Quando tudo isto terminou e finalmente tive as minhas filhas em casa não consegui retomar logo a catequese. Tive um afastamento de meses porque não conseguia fazer algo que me suscitava dúvidas. Fui fazendo uma introspecção e recuperando a minha fé. Neste momento já fiz as pazes com Deus. Não foi de um dia para o outro e ainda não está a 100% mas estou no bom caminho.